Como as palavras podem ajudar o economista.


Apesar de importante, não, não estou falando de escrever bem em economia ou de entender da retórica que os economistas usam, como diria McCloskey. Palavras podem ajudar os economistas também de outra forma: como proxies para outras variáveis, aumentando amostras que, muitas vezes, estão disponíveis apenas para um período muito curto de tempo. Foi isso o que apresentou Alan Moreira, em seu working paper com Asaf Manela na SBE 2012.

Existe uma literatura que estuda os riscos de desastre raros percebidos pelos agentes e seus efeitos no mercado acionário. Uma possível medida de “risco” percebido pelos agentes é a volatilidade implícita por opções (VIX), entretanto disponível apenas desde 1986. Já o Wall Strett Journal (WSJ) existe desde 1889. Assim, os autores utilizaram as palavras constantes na capa do WSJ para prever o VIX .  Se palavras chaves utilizadas na capa do jornal servirem de fato para prever satisfatoriamente o risco percebido pelos agentes, é possível utilizá-las como proxy para períodos anteriores e ganhar quase um século de observações!

Os autores treinam o modelo em uma subamostra e testam seus resultados na restante, encontrando um ajuste considerado, por eles, satisfatório. No exercício de previsão fora da amostra, os autores verificaram se os picos de risco estimados correspondiam a fatos relevantes que os justificariam, retratados nos jornais. A impressão dos autores foi  a de que o modelo funciona bem  (o problema que vi nesta abordagem é uma exposição muito grande ao viés de confirmação. Pois, uma vez que você viu que sua estimativa é a de um risco alto, você, com alguma persistência, irá eventualmente achar algum fato histórico que justifique, ou racionalize, a posteriori sua estimativa).

Com uma amostra maior em mãos – e supondo que a medida seja boa – o paper estima com maior liberdade os impactos do risco percebido de desastres no mercado acionário: chega a estimativas com magnitudes plausíveis, segundo a literatura da área, sobre os efeitos do risco no retorno das ações e na probabilidade de um desastre e também sugere  que a persistência de choques seja menor do que anteriormente imaginada.

Mesmo com todas as possíveis limitações do método,  a “regressão de texto” proposta parece muito interessante e vale à pena conferir.

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