Aprenda a fazer previsão de eleições com o NYT.


Depois que o Nate Silver saiu do NYT, o jornal montou um novo time de previsão para eleições. O novo modelo, denominado LEO, está no ar e com uma descrição bem amigável de seu funcionamento.  A parte gráfica dos resultados também está bacana, inclusive com uma seção comparando o modelo do NYT com seus concorrentes (vale lembrar que o site conta com a ajuda do Michael Bostock, um dos caras que desenvolveu o fantástico D3 para JavaScript)

Mas, tem algo ainda melhor. O NYT liberou os dados e os códigos do modelo no github. E o modelo é em R. Ou seja, agora, para replicar e adaptar o modelo à realidade brasileira só faltam duas coisas: tempo e vontade.

Sobre os Royalties de petróleo


O congresso rejeitou os vetos da Dilma. Rio de Janeiro e Espírito Santo estão desesperados. Acho que vale à pena, portanto, resgatar um post do final de 2011, que tenta mostrar a possibilidade de isso não ser tão ruim quanto parece para a população (ou pelo menos parte da população) dos municípios dos dois estados.

Estatística na União Soviética


É bastante comum ver argumentos que são contra a liberdade econômica e, ao mesmo tempo, a favor da liberdade acadêmica, artística, de imprensa e de expressão em geral. Confunde-se – propositadamente ou não – democratização da mídia com financiamento público de propaganda ideológica, ou liberdade de imprensa com imprensa “neutra” ou “politicamente correta” (no sentido fluído que essas palavras ganham em cada contexto em que seu interlocutor usa).

Entretanto, ao menos no limite, há uma contradição inerente a este tipo de raciocínio; pois, uma vez que caiba a um órgão central definir quem exerce o quê em cada campo da esfera econômica, isto também abrange a atividade de professores, pesquisadores, jornalistas e artistas.

Se o único jornal a ser permitido no país é um jornal estatal, qual o incentivo para que notícias desfavoráveis ao governo circulem? Se as únicas universidades permitidas no país são estatais, qual o incentivo para que linhas de pesquisa que não agradem ao governo prosperem? E assim por diante. Sim, é possível contra-argumentar este argumento, e depois contra-argumentar o seu contra-argumento, e este é um debate acalorado e interessante; mas não será desenvolvido neste post. A ideia era apenas fazer uma introdução para comentar sobre a situação da ciência estatística na União Soviética na época de Stalin.

A Rússia produziu grandes estatísticos matemáticos, como Kolmogorov e Slutsky (sim, ele também é o mesmo que você estudou em microeconomia). Todavia, conforme se lê em The Lady Tasting Tea: How Statistics Revolutionized Science in the Twentieth Century, o regime comunista considerava que todas as ciências sociais eram, na verdade, ciências de classe, e  deveriam estar subordinadas ao planejamento central do partido. Para eles, a estatística era uma ciência social. E o conceito de “aleatório” ou “erro-padrão” era algo absurdo em uma economia planejada. Nas palavras de Salsburg (p.147-148):

A palavra russa para variável aleatória se traduz como “magnitude acidental”. Para planejadores centrais e teóricos, isso era um insulto [...] nada poderia ocorrer por acaso. Magnitudes acidentais poderiam descrever coisas que ocorrem em economias capitalistas – não na Rússia. As aplicações da estatística matemática foram rapidamente reprimidas.

Como resultado os periódicos de estatística foram se extinguindo e os estatísticos matemáticos tiveram que, ou pesquisar assuntos estatísticos disfarçados com outros nomes, ou mudar de área. E enquanto os Estados Unidos utilizavam os desenvolvimentos dos teóricos russos na prática – como no controle de qualidade industrial – a Rússia teve que esperar algumas décadas, até o colapso da União Soviética, para ver o fruto de seus próprios cientistas aplicado à indústria.

Comunidades tribais são mais violentas? O quão próxima é a distribuição normal? O papel do BNDES.


Alguns links aleatórios.

1) Não existe má publicidade 2 (o primeiro foi com relação ao livro do Sandel). Recém publicado livro do Jared Diamond (The World Until Yesterday: What Can We Learn from Traditional Societies?) parece ter provocado a ira (aqui e aqui) de grupos defensores das comunidades tribais. Resultado: comprei a versão para Kindle.

(Via Marginal Revolution)

2) Seguem alguns posts do Larry Wasserman que queria compartilhar há algum tempo, mas havia procrastinado:

- Review do livro de Nassim Taleb, Antifragile: Things That Gain from Disorder, apenas lido pela metade (because only sissy fragilistas finish a book before reviewing it);

- Sobre bootstrapping I e II;

- Sobre teoremas de upper-bound para erros de aproximação pela curva normal (vale conferir uma sugestão que surgiu nos comentários do post, um texto histórico, bacana, sobre robustez do Stigler).

3) Sobre o papel do BNDES. Artigo de Maurício Canêdo Pinheiro, no Estadão, bota em xeque a efetividade da instituição. Como suporte, menciona o working paper do Lazzarini (What Do Development Banks Do? Evidence from Brazil, 2002-2009). Lembro-me de terem comentado bastante sobre esse artigo na última Anpec, e tenho de confessar que as conclusões do paper são bastante alinhadas com minhas crenças e intuições a priori. A despeito disso, com base em uma passada de olho, fiquei na dúvida se os dados apresentados corroboram conclusões fortes. Para não falar mais sem ler com o devido cuidado, isso fica para outro dia.

A favor do mercado ou a favor das empresas?


Na coluna de hoje, Alexandre Schwartsman enfatiza os problemas de incentivos e rent-seeking associados à uma política econômica a favor de certas empresas – o que não deve ser confundido com uma política econômica a favor de um ambiente saudável para o florescimento do mercado. Sobre este ponto, acho que vale à pena resgatar um vídeo do Friedman, que também ressalta muito bem a diferença.

Posto de gasolina não pode, mas livrarias podem! Preço mínimo para desconto em livro digital.


Vimos preços mínimos para cigarro, para advogados… agora mais uma entidade se manifesta: carta aberta da ANL sobre o livro digital pede:

• Recomendamos estabelecer um intervalo de 120 dias entre o lançamento dos livros impressos no formato de papel no mercado brasileiro e sua liberação nas plataformas digitais.

• Solicitamos que o desconto para revenda do livro digital para todas as livrarias e para as demais plataformas seja uniforme, possibilitando igualdade de condições para todos os canais de comercialização nesse novo suporte de leitura.

• Sugerimos que a diferença de preço a menor do livro digital para o formato impresso seja no máximo igual a 30%.

Posto de gasolina não pode, mas livrarias podem?

Efeitos da urna eletrônica: participação maior dos iletrados, mais gastos com saúde e mais votos para a esquerda.


Hoje já estamos acostumados com o uso da urna eletrônica. É rápido, barato, eficiente e muitos garantem ser mais seguro do que o processo anterior. Mas, além desses benefícios, a adoção do sistema eletrônico no Brasil trouxe outros efeitos?

Sim, e é isso que Thomas Fujiwara tenta mostar. Em 1998, foi iniciado o processo de implementação em larga-escala do uso da urna eletrônica no Brasil. Entretanto, como ainda não havia máquinas para todos os municípios, apenas aqueles com mais do que 40.500 votantes receberam a urna – e este detalhe é muito interessante, pois faz com que o implemento da votação eletrônica seja um “quase-experimento” em grande escala.

Como? É plausível imaginar que os fatores determinantes de um município estar logo abaixo (ou logo acima) de 40.500 votantes sejam aleatórios, não-controláveis – isto é, ninguém consegue determinar exatamente quantos votantes existirão na cidade, pois choques externos afetam este número. Deste modo, os municípios com pouco menos de 40.500 votantes e os municípios com pouco mais de 40.500 votantes podem ser considerados similares, sendo a única diferença a adoção (aleatória) da urna eletrônica nas eleições, configurando um regression discontinuity design. Assim,  diferenças  encontradas na proximidade do ponto de corte são estimativas de efeitos causais da votação eletrônica em municípios deste porte.

Tendo isso em vista, Fujiwara estima o efeito causal do uso da urna eletrônica na participação (válida) dos eleitores e o efeito encontrado é bastante grande – cerca de 12 pontos percentuais de votos a mais. O autor vai além, e argumenta que este aumento é devido, principalmente, a uma participação maior de eleitores pouco educados. Apesar de, para alguém alfabetizado, o voto em papel ser uma tarefa trivial, esta pode ser uma tarefa bastante complicada para um analfabeto. A urna eletrônica, por sua vez, além de apresentar a foto do candidato, requer apenas o uso de números, o que facilita sobremaneira o voto. E, de fato, municípios com iletrados acima da média apresentaram um aumento de participação entre 15 a 19 pontos percentuais.

Uma vez que a adoção da urna eletrônica aumenta o número de pessoas mais pobres e iletradas na votação, Fujiwara estima ainda outros efeitos decorrentes deste fato, como:  o aumento na proporção de votos para partidos de esquerda (1/3 de desvio padrão) e o aumento de cerca de 50% com gastos em saúde pública em 8 anos, com repercussões no número visitas pré-natal para mulheres, bem como no peso de recém-nascidos.

Mas será que estes efeitos não são correlações espúrias? A argumentação do autor é persuasiva, mostrando que outras fontes de erro não são tão plausíveis (mas, evidentemente, sempre possíveis). Dentre os argumentos, cabe mencionar, por exemplo, um teste placebo com relação ao primeiro efeito que mencionamos – o aumento da participação nas eleições – com resultados virtualmente iguais a zero.