A inflação na Argentina III


O jornal La Nación anuncia: argentinos ressuscitam os fiscais do Sarney.

La funcionaria resaltó que la presidenta Cristina Kirchner, la semana pasada, al anunciar “Mirar para Cuidar”, el programa de militantes en la calle controlando precios, “convocó a que todos cuidemos los logros y les dijo a los empresarios que el aumento en los salarios y asignaciones, no hay ninguna razón para que nada cambie de precio por estos anuncios”.

Via Celso Toledo.

Sobre a acurácia das variáveis econômicas II


Em post anterior tratamos da importância de se conhecer bem as variáveis com que se trabalha. Muitas vezes o economista utiliza dados que, por sua dificuldade de mensuração, são estimados por terceiros (IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional etc). Assim, há uma tendência a se saber muito pouco sobre como esses dados são produzidos na prática e, sem entender quais suas limitações e quais seus pontos fortes, se esquece de tratá-los devidamente como estimativas.

Neste sentido, gostei muito de ver que outros blogs tem compartilhado desta mesma preocupação.

Dave Giles, por exemplo, resume algumas verdades importantes sobre dados oficiais, que são comumente esquecidas:

  • Dados são revisados o tempo inteiro: o número que saiu ontem do PIB pode mudar drasticamente amanhã.
  • Dados somem: eu já enfrentei isso com uma série de horas de trabalho que estava disponível no IPEA Data e que, alguns meses depois, simplesmente foi descontinuada e excluída.
  • As definições e metodologia mudam: por exemplo, a metodologia do Censo de Capitais Estrangeiros no País mudou recentemente. O usuário tem que ter isto em mente e não pode simplesmente comparar um dado com outro sem ajustes.
  • Os dados oficiais são estimativas: sobre isso tratamos no post anterior!

Dave Giles também recomendou alguns papers sobre o assunto e tratou de um interessante relatório sobre a qualidade dos dados chineses, aspecto fundamental para quem analisa aquela economia.

Já Mark Thoma começou a se dar conta do problema ao ler a notícia de que o IBGE americano está incorporando novos aspectos às contas nacionais que, simplesmente, podem “reescrever a história econômica”. Você já parou para se perguntar quantos “fatos estilizados” que conhecemos, como, por exemplo, a semi-estagnação de algumas economias desenvolvidas, podem (ou não) ser fruto da adoção de uma ou outra metodologia? Em posts futuros trarei exemplos interessantes de dados oficiais que são estimativas, mas agora queria tratar sobre aspectos que norteiam a discussão sobre a qualidade dos dados.

Sobre este quesito, o FMI tem um site inteiramente dedicado ao assunto: o Data Quality Reference Site. Trata-se de um louvável esforço para promover a agenda de pesquisa sobre a qualidade dos dados (macro)econômicos. O Fundo criou um interessante marco para a avaliação da qualidade – em um aspecto ainda qualitativo e não quantitativo – dividido em 6 dimensões:

0 - Condições Prévias: busca verificar alguns aspectos institucionais para a produção do dado, como o entorno jurídico e a quantidade de recursos disponível;

1 – Garantias de Integridade: avalia aspectos como o profissionalismo, a transparência e as normas éticas da produção;

2 – Rigor Metodológico: inspeciona se os conceitos e definições adotados estão conformes ao padrão internacional, se o alcance da pesquisa é suficiente, se as categorizações são adequadas;

3 – Acurácia e Confiança: verificam a adequação das fontes de dados utilizadas, se há um processo de avaliação, validação e revisão dos dados, se as técnicas estatísticas são sólidas;

4 – Utilidade para o Usuário: trata de questões de periodicidade, pontualidade, consistência e revisão;

5 – Acesso: aborda questões de acesso aos dado, acesso aos metadados (isso é, aos dados sobre como os dados foram produzidos) e assistência aos usuários.

O ideal seria termos, também, uma noção quantitativa do erro, mas este esforço já é um grande passo. Você pode encontrar o detalhamento destes pontos para contas nacionais, contas externas, finanças públicas, índices de preço, entre outros, em seu respectivo Data Quality Assessment Framework.

Você, que já trabalhou ou pretende trabalhar com dados em painel, comparando diversos países, já teve a curiosidade de se perguntar sobre a diferente qualidade dos dados que está misturando?

Para alguns países, é possível fazer isso analisando o seu Report on the Observance of Standards and Codes (mais conhecido como ROSC) sobre dados. Tomando o caso do Chile como exemplo, que possui um ROSC para dados no ano de 2007, seria possível descobrir que havia sérios problemas no escopo da pesquisa de índices de preços, e que havia propostas para solucionar a questão em dezembro de 2008. Perceba que, para quem trabalha com dados de preços chilenos antes de 2007, esta é uma informação fundamental!

A inflação na Argentina II


Primeiro, maquiam os índices de preço.Os trabalhadores percebem, passam a não acreditar na inflação oficial, e exigem a inflação do “carrinho de supermercado”. Solução genial e inédita na América Latina: congelam preços dos supermercados.

Aumentar a taxa de juros pode depreciar o Real?


Segundo Carlos Eduardo Gonçalves e Bernardo Guimarães, sim e isso pode (poderia) estar ocorrendo no Brasil.

Os autores trazem à tona a literatura que mostra como a paridade descoberta da taxa de juros (UIP) pode ficar invertida. A razão para tanto seria basicamente que, em algumas situações, o maior risco de default associado ao aumento dos juros superaria o maior retorno nominal.

Gonçalves e Guimarães também tentam buscar evidências dessa relação invertida no Brasil. Estimam que um aumento de 1 ponto percentual (100 pontos bases – note que não é a variação de 1%) na taxa de juros implicaria em uma depreciação de aproximadamente zero a 2% na taxa de câmbio.

Como sabemos, um dos canais da política monetária é seu efeito na taxa de câmbio por meio do pass-through. Em geral, supõe-se que este canal atue no sentido correto, isto é, aumento de juros implicaria em apreciação cambial e arrefecimento da inflação. O resultado dos autores é contra-intuitivo. Uma lição interessante deste exercício é que, em alguns casos, um aparente “sinal errado” que você obtém em uma estimativa pode não estar errado – então pense bem antes de fazer lambanças mudanças na especificação de um modelo até conseguir o sinal “correto”! É melhor estar aproximadamente certo, mesmo que com um resultado estranho, do que exatamente errado mas com os resultados que você queria.

Mas qual a importância deste resultado a não ser por uma curiosidade teórica? Note que, se o canal do câmbio tiver efeito contrário, isso poderia ter sérias implicações na política monetária. Afinal, o efeito do aumento da taxa de juros por este canal estaria atuando em direção contrária à desejada. Mas por que coloquei poderia? Porque a magnitude aqui faz toda a diferença.

Exponho, então, algo de que senti falta (além de uma discussão mais detalhada sobre a validade dos pressupostos da estratégia econométrica) no artigo (obviamente que isso não quer dizer que o artigo esteja ruim): um julgamento quantitativo da estimativa. Quão relevante seria um impacto de aproximadamente zero a 2%? No artigo, por exemplo, não temos as estatísticas descritivas do período (2000 a 2006), é difícil julgar se essa variação é grande ou pequena na amostra, frente à variação de 1 ponto percentual na taxa de juros. Nessa época o câmbio chegou a oscilar entre 1 e tantos a 3 reais. Uma mudança de R$0,02 ou R$0,06 na taxa de câmbio seria economicamente relevante para fins de política monetária?

Apenas a título de ilustração, segundo uma estimativa de Nogueira Junior, em um ambiente de inflação baixa e estável uma depreciação cambial de 10% poderia resultar em aumento de inflação de apenas 0,8%. Neste caso, se as magnitudes forem comparáveis*, o efeito estimado de Gonçalves e Guimarães me pareceria, na prática, zero, negligenciável. Mas será que é? Não sei. Mas note que, se é possível demonstrar, de maneira plausível, que a UIP invertida é uma possibilidade, então, como possibilidade, a teoria bastaria. Já como realidade, a existência por si só não basta. Entender o tamanho de seu efeito parece muito mais importante.

Em resumo, o leitor, apenas com os dados apresentados, não consegue identificar a relevância (ou irrelevância) econômica da inversão da UIP… o que se consegue é conjecturar sobre a possibilidade teórica de sua existência, sem uma noção mais robusta de seu impacto.

* por exemplo, as medidas de câmbio são diferentes. Há outras questões, a idéia é apenas ilustrar o ponto.

PS: o Carlos Eduardo tem um Blog bacana com Fábio Kanczuk e Celso Toledo.

Como a inflação tem atingido diferentes grupos após a estabilização e abertura comercial


A inflação não é um fenômeno homogêneo e tem um impacto diferente em cada indivíduo. Apesar de ser um fenômeno macro, sua percepção é essencialmente micro –  o IPCA pode ter fechado o ano passado em 6,5%, mas muito provavelmente o seu (e com certeza o meu) custo de vida teve uma variação distinta.

Deste modo, é interessante decompor a inflação por regiões ou por classes sociais, para saber como ela tem impactado grupos diversos. Como a inflação é uma média ponderada, o primeiro passo é saber a composição da cesta de consumo de cada grupo que se pretende analisar. A tabela 2 abaixo, retirada do artigo de Silva e Neto, mostra esta composição para pobres, classe média e classe alta, nas regiões centro-sul e nordeste.

De fato, tomando o nordeste como exemplo, enquanto lá os pobres gastam 41% por cento de sua renda com alimentação e bebidas , este valor é de somente 12% para a classe alta, que tem seu consumo mais vertido para transporte, saúde e despesas pessoais. É interessante notar que esses são bens e serviços com reações diferentes frente à demanda interna e à concorrência externa.

Alimentos e bebidas estão em um grupo de bens a que chamamos de comercializáveis: eles são disciplinados pela concorrência internacional. Isto é, o preço doméstico tem de ser igual ao preço externo vezes a taxa de câmbio (mais os custos de transação, impostos inclusive). Deste modo, este mercado responde menos à demanda doméstica e mais à taxa de câmbio e aos preços internacionais. Tanto que de 1995 a 2008,  a inflação de alimentos superou o IPCA nos anos 2001-2002 (alta do dólar) e nos anos 2007-2008 (alta dos preços internacionais dos alimentos).

Já a saúde e as despesas pessoais (este último inclui serviços e recreação) são não-comercializáveis; além disso, o mercado de transportes (e veículos) é bastante regulado. Assim, os preços destes bens/serviços deveriam refletir mais fatores internos, como a estrutura de custos brasileira e pressões de demanda.

E como se comportaram estes preços no período 1995-2008? Conforme a tabela 3 abaixo,  a inflação de alimentos foi cerca de 5 a 2 vezes menor do que a inflação de outros componentes.

Assim, a inflação acumulada para os pobres no nordeste foi 22,7 pontos percentuais menor do que a média nacional. Aparentemente, a abertura comercial, o real forte e a estabilização da economia tem protegido os mais pobres de uma alta mais acentuada nos preços – o governo deveria pensar duas vezes antes de intervir nessas questões.

A inflação na Argentina


Alexandre Schwartsman discute o “milagre” argentino mostrando que, ou os hermanos estão na vanguarda da eficiência energética, ou há algo estranho nas contas nacionais argentinas. Apesar de não existir dúvida sobre qual a alternativa mais provável, sempre é bom coletar mais evidências. Hoje me alertaram sobre o artigo de Cavallo, do primeiro trimestre deste ano, Online and Official Price Indexes: Measuring Argentina’s Inflation. O autor constrói índices de preços on-line com base nos sites de grandes supermercados da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela. Resultado: nos quatro últimos países o índice on-line se comporta de maneira semelhante ao índice oficial. Na Argentina, nos pouco mais de três anos da amostra, o índice on-line cresceu 100%, mas o oficial “apenas” 35%.

PS: a ideia do índice é simples e poderosa. Temei IBGE.

Metas de Inflação?


Dizem que o governo está abandonando (ou já abandonou) o regime de metas de inflação. O que a comparação internacional tem a nos dizer sobre esta opção?

Um working paper do Irineu de Carvalho Filho sugere que os países que adotaram o regime de metas se saíram muito melhor na crise do que os que não adotaram. Como um gráfico (às vezes) vale mais do que mil palavras, segue a imagem retirada do blog do autor (em azul os países com metas de inflação):

Outro trabalho, antes da crise, é o de Carlos Eduardo Gonçalves (blog aqui) e Alexandre Carvalho que, ao examinarem o custo (em termos de PIB) de reduzir a inflação dos países que adotaram em contraste aos que não adotaram metas, verificaram*** que este pode ser bem menor (4 p.p do PIB) para os primeiros:

Judging by the coefficient of our most preferred specification, countries adopting IT save roughly 4 percentage points in GDP (level) relative to its trend for each point of inflation decline.

*** com base na especificação “mais preferida” dos autores, que não sei se realmente é a preferida e se é estatisticamente adequada.

 

 

Câmbio e Inflação I


Está se ouvindo falar muito de intervenção cambial por parte do governo e do relaxamento das metas de inflação. Quais os prováveis impactos dessas medidas na relação câmbio-inflação (o chamado pass-through cambial)?

Nogueira Junior encontra evidências de que, quanto maior e mais instável a inflação, o efeito de uma desvalorização cambial sobre os preços é maior. O valor limite da inflação, estimado pelo autor, para a mudança do  regime de baixo para alto pass-through  é de 10,6% a.a.  Ainda longe do que estamos vendo. Todavia, é importante lembrar que isso é uma estimativa, e o threshold decerto varia com as circunstâncias. Ademais, um intervalo de confiança no coeficiente alcançaria valores de até 7,8% a.a., o que já não parece tão distante (por falar nisso, infelizmente muitos autores esquecem de analisar intervalos de confiança).

Em outro estudo, Correa e Minella também encontram indícios de que, em períodos de alta atividade econômica, há um repasse maior do câmbio sobre a inflação. Além disso, o modelo sugere que, em períodos em que a taxa de câmbio é menos volátil (isso geralmente ocorre quando o governo interfere, com bandas cambiais ou câmbio fixo, por exemplo), o repasse cambial costuma ser algo de 5 a 10 vezes maior. Como no ponto anterior, ainda provavelmente não chegamos a um nível de intervenção que leve a esta situação; mas, a depender dos discursos de alguns setores da economia, isso não parece uma realidade assim tão distante.

O “núcleo” da inflação no Brasil.


Silva Filho e Figueiredo fazem uma análise das medidas de core da inflação brasileira. Resultados preliminares: elas são enviesadas e possuem pouco poder preditivo – em outras palavras, não são boas. Os autores também tentam construir medidas de núcleo melhores do que as utilizadas. Mas, mesmo com performance superior, as novas medidas são tão “próximas” da medida tradicional do IPCA que acabam sendo argumento para os céticos: isto é, de que o próprio IPCA é seu “melhor” núcleo.

PS: o artigo é um dos poucos que analisei que se atentam a algumas questões estatísticas com o devido ceticismo, como algo análogo ao problema batizado por Ed. Leamer (sobre quem já comentamos aqui) de White Washing (este texto é uma ácida e excelente resposta ao famoso artigo de Angrist e Pischke sobre a revolução de credibilidade nos trabalhos empíricos). Vou tentar falar disto no próximo post.