A inflação na Argentina III


O jornal La Nación anuncia: argentinos ressuscitam os fiscais do Sarney.

La funcionaria resaltó que la presidenta Cristina Kirchner, la semana pasada, al anunciar “Mirar para Cuidar”, el programa de militantes en la calle controlando precios, “convocó a que todos cuidemos los logros y les dijo a los empresarios que el aumento en los salarios y asignaciones, no hay ninguna razón para que nada cambie de precio por estos anuncios”.

Via Celso Toledo.

A inflação na Argentina II


Primeiro, maquiam os índices de preço.Os trabalhadores percebem, passam a não acreditar na inflação oficial, e exigem a inflação do “carrinho de supermercado”. Solução genial e inédita na América Latina: congelam preços dos supermercados.

Aumentar a taxa de juros pode depreciar o Real?


Segundo Carlos Eduardo Gonçalves e Bernardo Guimarães, sim e isso pode (poderia) estar ocorrendo no Brasil.

Os autores trazem à tona a literatura que mostra como a paridade descoberta da taxa de juros (UIP) pode ficar invertida. A razão para tanto seria basicamente que, em algumas situações, o maior risco de default associado ao aumento dos juros superaria o maior retorno nominal.

Gonçalves e Guimarães também tentam buscar evidências dessa relação invertida no Brasil. Estimam que um aumento de 1 ponto percentual (100 pontos bases – note que não é a variação de 1%) na taxa de juros implicaria em uma depreciação de aproximadamente zero a 2% na taxa de câmbio.

Como sabemos, um dos canais da política monetária é seu efeito na taxa de câmbio por meio do pass-through. Em geral, supõe-se que este canal atue no sentido correto, isto é, aumento de juros implicaria em apreciação cambial e arrefecimento da inflação. O resultado dos autores é contra-intuitivo. Uma lição interessante deste exercício é que, em alguns casos, um aparente “sinal errado” que você obtém em uma estimativa pode não estar errado – então pense bem antes de fazer lambanças mudanças na especificação de um modelo até conseguir o sinal “correto”! É melhor estar aproximadamente certo, mesmo que com um resultado estranho, do que exatamente errado mas com os resultados que você queria.

Mas qual a importância deste resultado a não ser por uma curiosidade teórica? Note que, se o canal do câmbio tiver efeito contrário, isso poderia ter sérias implicações na política monetária. Afinal, o efeito do aumento da taxa de juros por este canal estaria atuando em direção contrária à desejada. Mas por que coloquei poderia? Porque a magnitude aqui faz toda a diferença.

Exponho, então, algo de que senti falta (além de uma discussão mais detalhada sobre a validade dos pressupostos da estratégia econométrica) no artigo (obviamente que isso não quer dizer que o artigo esteja ruim): um julgamento quantitativo da estimativa. Quão relevante seria um impacto de aproximadamente zero a 2%? No artigo, por exemplo, não temos as estatísticas descritivas do período (2000 a 2006), é difícil julgar se essa variação é grande ou pequena na amostra, frente à variação de 1 ponto percentual na taxa de juros. Nessa época o câmbio chegou a oscilar entre 1 e tantos a 3 reais. Uma mudança de R$0,02 ou R$0,06 na taxa de câmbio seria economicamente relevante para fins de política monetária?

Apenas a título de ilustração, segundo uma estimativa de Nogueira Junior, em um ambiente de inflação baixa e estável uma depreciação cambial de 10% poderia resultar em aumento de inflação de apenas 0,8%. Neste caso, se as magnitudes forem comparáveis*, o efeito estimado de Gonçalves e Guimarães me pareceria, na prática, zero, negligenciável. Mas será que é? Não sei. Mas note que, se é possível demonstrar, de maneira plausível, que a UIP invertida é uma possibilidade, então, como possibilidade, a teoria bastaria. Já como realidade, a existência por si só não basta. Entender o tamanho de seu efeito parece muito mais importante.

Em resumo, o leitor, apenas com os dados apresentados, não consegue identificar a relevância (ou irrelevância) econômica da inversão da UIP… o que se consegue é conjecturar sobre a possibilidade teórica de sua existência, sem uma noção mais robusta de seu impacto.

* por exemplo, as medidas de câmbio são diferentes. Há outras questões, a idéia é apenas ilustrar o ponto.

PS: o Carlos Eduardo tem um Blog bacana com Fábio Kanczuk e Celso Toledo.

Como a inflação tem atingido diferentes grupos após a estabilização e abertura comercial


A inflação não é um fenômeno homogêneo e tem um impacto diferente em cada indivíduo. Apesar de ser um fenômeno macro, sua percepção é essencialmente micro –  o IPCA pode ter fechado o ano passado em 6,5%, mas muito provavelmente o seu (e com certeza o meu) custo de vida teve uma variação distinta.

Deste modo, é interessante decompor a inflação por regiões ou por classes sociais, para saber como ela tem impactado grupos diversos. Como a inflação é uma média ponderada, o primeiro passo é saber a composição da cesta de consumo de cada grupo que se pretende analisar. A tabela 2 abaixo, retirada do artigo de Silva e Neto, mostra esta composição para pobres, classe média e classe alta, nas regiões centro-sul e nordeste.

De fato, tomando o nordeste como exemplo, enquanto lá os pobres gastam 41% por cento de sua renda com alimentação e bebidas , este valor é de somente 12% para a classe alta, que tem seu consumo mais vertido para transporte, saúde e despesas pessoais. É interessante notar que esses são bens e serviços com reações diferentes frente à demanda interna e à concorrência externa.

Alimentos e bebidas estão em um grupo de bens a que chamamos de comercializáveis: eles são disciplinados pela concorrência internacional. Isto é, o preço doméstico tem de ser igual ao preço externo vezes a taxa de câmbio (mais os custos de transação, impostos inclusive). Deste modo, este mercado responde menos à demanda doméstica e mais à taxa de câmbio e aos preços internacionais. Tanto que de 1995 a 2008,  a inflação de alimentos superou o IPCA nos anos 2001-2002 (alta do dólar) e nos anos 2007-2008 (alta dos preços internacionais dos alimentos).

Já a saúde e as despesas pessoais (este último inclui serviços e recreação) são não-comercializáveis; além disso, o mercado de transportes (e veículos) é bastante regulado. Assim, os preços destes bens/serviços deveriam refletir mais fatores internos, como a estrutura de custos brasileira e pressões de demanda.

E como se comportaram estes preços no período 1995-2008? Conforme a tabela 3 abaixo,  a inflação de alimentos foi cerca de 5 a 2 vezes menor do que a inflação de outros componentes.

Assim, a inflação acumulada para os pobres no nordeste foi 22,7 pontos percentuais menor do que a média nacional. Aparentemente, a abertura comercial, o real forte e a estabilização da economia tem protegido os mais pobres de uma alta mais acentuada nos preços – o governo deveria pensar duas vezes antes de intervir nessas questões.

A inflação na Argentina


Alexandre Schwartsman discute o “milagre” argentino mostrando que, ou os hermanos estão na vanguarda da eficiência energética, ou há algo estranho nas contas nacionais argentinas. Apesar de não existir dúvida sobre qual a alternativa mais provável, sempre é bom coletar mais evidências. Hoje me alertaram sobre o artigo de Cavallo, do primeiro trimestre deste ano, Online and Official Price Indexes: Measuring Argentina’s Inflation. O autor constrói índices de preços on-line com base nos sites de grandes supermercados da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela. Resultado: nos quatro últimos países o índice on-line se comporta de maneira semelhante ao índice oficial. Na Argentina, nos pouco mais de três anos da amostra, o índice on-line cresceu 100%, mas o oficial “apenas” 35%.

PS: a ideia do índice é simples e poderosa. Temei IBGE.

Câmbio e Inflação I


Está se ouvindo falar muito de intervenção cambial por parte do governo e do relaxamento das metas de inflação. Quais os prováveis impactos dessas medidas na relação câmbio-inflação (o chamado pass-through cambial)?

Nogueira Junior encontra evidências de que, quanto maior e mais instável a inflação, o efeito de uma desvalorização cambial sobre os preços é maior. O valor limite da inflação, estimado pelo autor, para a mudança do  regime de baixo para alto pass-through  é de 10,6% a.a.  Ainda longe do que estamos vendo. Todavia, é importante lembrar que isso é uma estimativa, e o threshold decerto varia com as circunstâncias. Ademais, um intervalo de confiança no coeficiente alcançaria valores de até 7,8% a.a., o que já não parece tão distante (por falar nisso, infelizmente muitos autores esquecem de analisar intervalos de confiança).

Em outro estudo, Correa e Minella também encontram indícios de que, em períodos de alta atividade econômica, há um repasse maior do câmbio sobre a inflação. Além disso, o modelo sugere que, em períodos em que a taxa de câmbio é menos volátil (isso geralmente ocorre quando o governo interfere, com bandas cambiais ou câmbio fixo, por exemplo), o repasse cambial costuma ser algo de 5 a 10 vezes maior. Como no ponto anterior, ainda provavelmente não chegamos a um nível de intervenção que leve a esta situação; mas, a depender dos discursos de alguns setores da economia, isso não parece uma realidade assim tão distante.

O “núcleo” da inflação no Brasil.


Silva Filho e Figueiredo fazem uma análise das medidas de core da inflação brasileira. Resultados preliminares: elas são enviesadas e possuem pouco poder preditivo – em outras palavras, não são boas. Os autores também tentam construir medidas de núcleo melhores do que as utilizadas. Mas, mesmo com performance superior, as novas medidas são tão “próximas” da medida tradicional do IPCA que acabam sendo argumento para os céticos: isto é, de que o próprio IPCA é seu “melhor” núcleo.

PS: o artigo é um dos poucos que analisei que se atentam a algumas questões estatísticas com o devido ceticismo, como algo análogo ao problema batizado por Ed. Leamer (sobre quem já comentamos aqui) de White Washing (este texto é uma ácida e excelente resposta ao famoso artigo de Angrist e Pischke sobre a revolução de credibilidade nos trabalhos empíricos). Vou tentar falar disto no próximo post.