Os casados são mais felizes? Ou sobre causas e conseqüências.


Tratei anteriormente sobre a troca entre meios e fins bem como entre intenções e resultados. Agora, para passar o tempo antes de escrever a dissertação, gostaria de falar de uma confusão muito mais intrincada. Até, muitas vezes, a depender do problema, eternamente insolúvel: aquela entre causa e conseqüência.

Suponha que alguém lhe apresente dados de uma pesquisa em que se constate que a felicidade de pessoas casadas é maior do que a dos solteiros. A partir daí podemos concluir que casar deixa, na média, as pessoas mais felizes e, portanto, recomendar que as pessoas se casem, certo?

Bem, antes de concluirmos apressadamente, que tal pensarmos na seguinte hipótese. Pessoas mais felizes têm mais facilidade de se casar. Parece algo plausível, afinal, se você é uma pessoa “naturalmente mais alegre”, ou que está em uma situação confortável na vida, pode ter mais facilidade em um relacionamento do que alguém “naturalmente mais triste”, ou que passa, digamos, dificuldades financeiras.

Ora, mas se isso é uma hipótese válida, não poderia ser que observamos os casados mais felizes do que os solteiros justamente porque aqueles que são  (ou estão) mais felizes se casam mais facilmente? Aí entra o problema de identificação entre causa e conseqüência – casar deixa as pessoas mais felizes ou as pessoas mais felizes se casam mais?

Há diversos estudos sobre este assunto em particular. Em geral, do que já li, as conclusões são ambíguas, mas tendem a aceitar as duas hipóteses: sim, pessoas felizes casam mais; contudo, ainda assim há um efeito positivo do casamento em si sobre a felicidade do casal. Para não ficar sem citar nada, um em particular que trata do assunto e que sempre me vem à cabeça (por causa do título fácil – olhe a importância de um bom título) é o do Bruno Frey “Does marriage make people happy,or do happy people get married?”, autor que tenho evitado mencionar pois se envolveu em caso de (auto)plágio.

Há vários exemplos que poderíamos abordar. Por exemplo, no Brasil, as universidades públicas são realmente melhores do que as universidade particulares (como diz o senso comum), ou essa impressão decorre simplesmente do fato de que os melhores alunos acabam indo para as universidades públicas? Crianças que passam muito tempo em frente à televisão se tornam “anti-sociais” ou crianças que não gostam tanto de sair passam muito tempo em frente à televisão justamente para evitar contato?

Por fim, gostaria de ressaltar que se percebe daqui que dados, sozinhos, não nos fornecem muita coisa. Infelizmente, os dados não falam por si, é preciso tratá-los, interpretá-los. Para isso é essencial uma boa teoria que explique a relação observada. Às vezes, quando muito bem deduzida, a teoria por si só pode ser suficiente. Entretanto, como não somos infalíveis e em geral nossas especulações não são completas, nunca é demais – e às vezes pode ser o melhor que temos – tratar os dados estatisticamente e confrontar teoria com realidade.

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7 pensamentos sobre “Os casados são mais felizes? Ou sobre causas e conseqüências.

  1. Jerê, acredito que esse tipo de questionamento, como sugere o título do paper do Stutzer & Frey (hehe, um bom título é muito importante mesmo!), de certa forma permeie o subconsciente das pessoas, pelo menos no meu caso (é claro que existem pessoas que de fato se perdem no raciocínio). No entanto, também acredito que muitas vezes as pessoas “confundem” deliberadamente causa com conseqüência devido a interesses estritamente particulares. Um exemplo: qual atitude é melhor adequada aos anseios eleitoreiros do Presidente da República, afirmar que as universidades públicas brasileiras são melhores do que as particulares ou que os melhores alunos optam por estudar em instituições públicas? Deste tema, inclusive, pode-se fazer diversos questionamentos. O próprio governo poderia retrucar afirmando que os melhores alunos escolhem as universidades públicas pois estas possuem o melhor ensino. Todavia, uma tréplica interessante – e bastante plausível, a meu ver – seria: os melhores alunos reconhecem nas universidades públicas o melhor ensino, ou simplesmente as escolhem porque nelas não são cobradas mensalidades? No caso das Ciências Econômicas isso é bem verdade, uma vez que há muitas faculdades de economia particulares muito bem conceituadas (até melhores que as públicas), mas que cobram horrores, restringindo bastante seu corpo discente.
    Grande abraço!

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    • Eu fiz pública e particular e também tenho muitos amigos de públicas e particulares. Pela experiência pessoal, a conclusão inicial é essa mesmo, que a fama das públicas acaba vindo por conta da seleção dos alunos que, na média, acaba sendo mais concorrida. O ideal seria compararmos os dados em larga escala, ainda não vi um estudo que tratasse do tema aqui no Brasil.

      Abraços!

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  2. Ah, bem estranho um autor ser acusado de (auto)plágio… não li a matéria cujo link você postou, mas à primeira vista achei esquisito.
    Abs.

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  3. Comecei a ler o post do Storbeck e percebi do que se trata. Realmente, o Frey cometeu o erro de não ter feito referências à sua publicação similar, cuja punição moral será um golpe duro para ele. Quer um exemplo? Você evita citá-lo justamente por causa disso.

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      • É uma pena ver um economista (bem conceituado na Europa, pelo que parece), ou qualquer outro pesquisador, nessa situação, mas pelo que estava lendo, as revistas/jornais que fazem parte da American Economic Association proíbem a publicação de artigos já publicados em outras revistas sem que sejam feitas as devidas referências. Tomara que no final do processo o prejuízo para ele seja o menor possível.
        Abraços.

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  4. Pingback: O caso Bruno Frey | Análise Real

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