Efeitos da urna eletrônica: participação maior dos iletrados, mais gastos com saúde e mais votos para a esquerda.


Hoje já estamos acostumados com o uso da urna eletrônica. É rápido, barato, eficiente e muitos garantem ser mais seguro do que o processo anterior. Mas, além desses benefícios, a adoção do sistema eletrônico no Brasil trouxe outros efeitos?

Sim, e é isso que Thomas Fujiwara tenta mostar. Em 1998, foi iniciado o processo de implementação em larga-escala do uso da urna eletrônica no Brasil. Entretanto, como ainda não havia máquinas para todos os municípios, apenas aqueles com mais do que 40.500 votantes receberam a urna – e este detalhe é muito interessante, pois faz com que o implemento da votação eletrônica seja um “quase-experimento” em grande escala.

Como? É plausível imaginar que os fatores determinantes de um município estar logo abaixo (ou logo acima) de 40.500 votantes sejam aleatórios, não-controláveis – isto é, ninguém consegue determinar exatamente quantos votantes existirão na cidade, pois choques externos afetam este número. Deste modo, os municípios com pouco menos de 40.500 votantes e os municípios com pouco mais de 40.500 votantes podem ser considerados similares, sendo a única diferença a adoção (aleatória) da urna eletrônica nas eleições, configurando um regression discontinuity design. Assim,  diferenças  encontradas na proximidade do ponto de corte são estimativas de efeitos causais da votação eletrônica em municípios deste porte.

Tendo isso em vista, Fujiwara estima o efeito causal do uso da urna eletrônica na participação (válida) dos eleitores e o efeito encontrado é bastante grande – cerca de 12 pontos percentuais de votos a mais. O autor vai além, e argumenta que este aumento é devido, principalmente, a uma participação maior de eleitores pouco educados. Apesar de, para alguém alfabetizado, o voto em papel ser uma tarefa trivial, esta pode ser uma tarefa bastante complicada para um analfabeto. A urna eletrônica, por sua vez, além de apresentar a foto do candidato, requer apenas o uso de números, o que facilita sobremaneira o voto. E, de fato, municípios com iletrados acima da média apresentaram um aumento de participação entre 15 a 19 pontos percentuais.

Uma vez que a adoção da urna eletrônica aumenta o número de pessoas mais pobres e iletradas na votação, Fujiwara estima ainda outros efeitos decorrentes deste fato, como:  o aumento na proporção de votos para partidos de esquerda (1/3 de desvio padrão) e o aumento de cerca de 50% com gastos em saúde pública em 8 anos, com repercussões no número visitas pré-natal para mulheres, bem como no peso de recém-nascidos.

Mas será que estes efeitos não são correlações espúrias? A argumentação do autor é persuasiva, mostrando que outras fontes de erro não são tão plausíveis (mas, evidentemente, sempre possíveis). Dentre os argumentos, cabe mencionar, por exemplo, um teste placebo com relação ao primeiro efeito que mencionamos – o aumento da participação nas eleições – com resultados virtualmente iguais a zero.

Econometria (na sua maior parte) inofensiva


A controvérsia PUC-RJ vs Reinaldo Azevedo acabou por trazer à tona os nomes de Angrist e Pischke, que têm ganhado bastante destaque recentemente. Ambos são autores de um livro que tem recebido atenção dos praticantes, Mostly Harmless Econometrics: An Empiricist’s Companion. O livro basicamente trata do uso da regressão linear em contextos de experimentos naturais ou mudanças de políticas públicas (“quase experimentais”), discorrendo sobre o uso de variáveis instrumentais e differences-in-differences. Eles também tratam de dois temas bastante recentes que são a quantile regression e regression discontinuity design.

Tal qual os livros Poor Economics e Why Nations Fail, os autores mantêm um site e blog homônimo ao livro.

PS: percebi que provavelmente serão mencionados diversos livros no blog, então agora há uma nova categoria “livros” que facilita a busca.

PS2: como todos os livros citados acima, este também possui uma versão em Kindle na Amazon. Esta é a versão que eu tenho, bastante prática mas formatação péssima.