Estatística na União Soviética


É bastante comum ver argumentos que são contra a liberdade econômica e, ao mesmo tempo, a favor da liberdade acadêmica, artística, de imprensa e de expressão em geral. Confunde-se – propositadamente ou não – democratização da mídia com financiamento público de propaganda ideológica, ou liberdade de imprensa com imprensa “neutra” ou “politicamente correta” (no sentido fluído que essas palavras ganham em cada contexto em que seu interlocutor usa).

Entretanto, ao menos no limite, há uma contradição inerente a este tipo de raciocínio; pois, uma vez que caiba a um órgão central definir quem exerce o quê em cada campo da esfera econômica, isto também abrange a atividade de professores, pesquisadores, jornalistas e artistas.

Se o único jornal a ser permitido no país é um jornal estatal, qual o incentivo para que notícias desfavoráveis ao governo circulem? Se as únicas universidades permitidas no país são estatais, qual o incentivo para que linhas de pesquisa que não agradem ao governo prosperem? E assim por diante. Sim, é possível contra-argumentar este argumento, e depois contra-argumentar o seu contra-argumento, e este é um debate acalorado e interessante; mas não será desenvolvido neste post. A ideia era apenas fazer uma introdução para comentar sobre a situação da ciência estatística na União Soviética na época de Stalin.

A Rússia produziu grandes estatísticos matemáticos, como Kolmogorov e Slutsky (sim, ele também é o mesmo que você estudou em microeconomia). Todavia, conforme se lê em The Lady Tasting Tea: How Statistics Revolutionized Science in the Twentieth Century, o regime comunista considerava que todas as ciências sociais eram, na verdade, ciências de classe, e  deveriam estar subordinadas ao planejamento central do partido. Para eles, a estatística era uma ciência social. E o conceito de “aleatório” ou “erro-padrão” era algo absurdo em uma economia planejada. Nas palavras de Salsburg (p.147-148):

A palavra russa para variável aleatória se traduz como “magnitude acidental”. Para planejadores centrais e teóricos, isso era um insulto […] nada poderia ocorrer por acaso. Magnitudes acidentais poderiam descrever coisas que ocorrem em economias capitalistas – não na Rússia. As aplicações da estatística matemática foram rapidamente reprimidas.

Como resultado os periódicos de estatística foram se extinguindo e os estatísticos matemáticos tiveram que, ou pesquisar assuntos estatísticos disfarçados com outros nomes, ou mudar de área. E enquanto os Estados Unidos utilizavam os desenvolvimentos dos teóricos russos na prática – como no controle de qualidade industrial – a Rússia teve que esperar algumas décadas, até o colapso da União Soviética, para ver o fruto de seus próprios cientistas aplicado à indústria.

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4 pensamentos sobre “Estatística na União Soviética

  1. Saudações, meu caro …

    Indico para você um outro livro que é ligado a estatística e matemática em geral: “O Andar do Bêbado”, de Leonard Mlodinow.

    Aproveite, eu recomendo [ainda não vi nada neste blog falando deste autor …]

    Grato por tudo e até a próxima…

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  2. O argumento é persuasivo, mas não encontra sustentação empírica. Argumentar que a Ciência não consegue se desenvolver em ambientes centralizados é desconhecer por exemplo: o sistema administrativo francês nos séculos XVII e XVIII era muito, mas muito centralizado, no entanto, a melhor Matemática da Europa, até aquele momento era francesa. No século XVIII, a monarquia russa repetiu o exemplo francês e criou a Academia de Ciências da Russia, “importando” gente como Leonard Euler. O mesmo pode ser dito na Europa dos Habsburgo. Para ficarmos no século XX, Stalin não teria conseguido explodir uma bomba em 1949, se não tivesse colocado um bocado de cientistas em um Gulag. Portanto, esse argumento de que instituições centralizadas não produzem boa ciência não se sustenta empiricamente. Esse argumento foi usado por Merton no início dos anos 50, quando a sociologia da ciência começou a engatinhar, mas hoje não se pode mais afirmar esse tipo de coisa.

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    • Valeria, voltei para comentar.

      O que o texto aponta é que a liberdade econômica está intimamente ligada a outras liberdades, inclusive liberdade acadêmcia.

      Ironicamente, talvez sem perceber, você trouxe um exemplo que ilustra perfeitamente o caso:

      “Para ficarmos no século XX, Stalin não teria conseguido explodir uma bomba em 1949, se não tivesse colocado um bocado de cientistas em um Gulag.” — evidentemente que esses cientistas não escolheram livremente sua pesquisa…

      Isto é, perceba que o texto não disse que “a Ciência não consegue se desenvolver em ambientes centralizados” ou “que instituições centralizadas não produzem boa ciência”.

      Até porque um argumento desses seria completamente absurdo, pois é evidente que em alguma sociedade sem liberdade econômica pode ser que alguma “boa ciência” surja.

      Mas se você formular essa pergunta de outra forma, aí sim ela pode até ficar interessante, apesar de não ter sido tema do texto:

      — Sociedades livres tendem a ter desenvolvimento científico e tecnológico mais rico e robusto ao longo do tempo?

      Aí podemos começar uma discussão legal. E diria que tanto a teoria quanto a evidência histórica apontam que sim.

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