A economia e as promessas de fim-de-ano


Muitos dizem que a economia é uma ciência bastante abstrata, com poucos conselhos úteis para o dia-a-dia. Se isso já foi verdade (algo com o qual – friso – não concordo), a economia comportamental certamente acabou com o estereótipo. Economistas e psicólogos explicam por que você promete, todo ano, coisas que você não irá cumprir ano que vem. Mas também fornecem meios de superar algumas dessas limitações.

Dan Ariely trouxe um post com 5 promessas de fim-de-ano que provavelmente você conseguirá cumprir. Qual o segredo? Lembre que você, muito provavelmente, desconta o tempo hiperbolicamente. Assim, faça coisas que te “obriguem” a manter a promessa, tal como, por exemplo, a partir de hoje programar uma transferência automática de dinheiro para a poupança (caso sua promessa seja a de poupar mais), ou manter apenas as comidas da sua dieta dentro de casa (caso sua promessa seja melhorar a saúde).

Complementemos Ariely falando um pouco mais sobre força de vontade e hábitos.

Aparentemente, tal como a energia de um músculo, a disciplina, o auto-controle e a força de vontade são exauríveis. Isto é, se você exercer grande esforço de auto-controle para uma atividade durante a manhã, as chances são de que à noite você irá se render às mais simples tentações. Entretanto, continuando com a analogia do músculo, acredita-se ser possível fortalecer o auto-controle por meio da prática.

Daqui, portanto, saem duas dicas para você manter as promessas de fim-de-ano: (i) se você quer mudar coisas que requerem bastante auto-controle (como criar ou extinguir um hábito), faça uma de cada vez. As chances de sucesso serão maiores e, com a prática para implementar a primeira mudança, será menos difícil implementar a segunda. Além disso, (ii) distribua de maneira inteligente as atividades ao longo do dia, poupando energia para aquelas atividades mais importantes que exigem bastante força de vontade.

Ainda mais, a economia institucional e a psicologia tem enfatizado como hábitos, regras de bolso e a dependência da trajetória são elementos pervasivos na sociedade. Isso vale, também, para sua vida pessoal.  Assim, entenda como hábitos funcionam (como eles são criados e mantidos) e use isso a seu favor. Lembre-se que, uma vez que um hábito é criado, a atividade não mais “consome” o seu “estoque” de auto-controle (ou reduz o consumo).

Há muito mais que poderíamos falar, mas a regra geral é a seguinte: entenda como seu cérebro funciona, as armadilhas que ele faz para você mesmo, e use isso a seu favor. A economia e psicologia têm muito a oferecer. Alguns livros que podem te ajudar na empreitada são:

Thinking, Fast and Slow, do prêmio Nobel Daniel Kahneman (menos de 5 dólares a versão Kindle);

The Irrational Bundle: Predictably Irrational, The Upside of Irrationality, and The Honest Truth About Dishonesty (eBook Bundle) (os três livros do Dan Ariely);

The Power of Habit: Why We Do What We Do in Life and Business.

Feliz 2014!

Anúncios

Por que você vai mentir novamente para você mesmo neste fim de ano?


O final de ano está chegando e muito provavelmente você está com uma lista de autoenganação promessas e metas a cumprir para que 2012 seja um ano muito melhor. Como você já deve saber, apesar de não querer acreditar nisto, é bem provável que você não cumpra nenhuma delas. Uma das hipóteses que os economistas criaram para tentar explicar por que você faz isso é a seguinte: você desconta o tempo hiperbolicamente.

Se alguém te oferecesse R$1,00 hoje ou R$1,50 amanhã, você muito provavelmente escolheria R$1,00 hoje – para que esperar mais um dia por cinquenta centavos? Já se, há um ano atrás, tivessem te oferecido R$1,00 daqui a um ano ou R$1,50 daqui a um ano e um dia, você poderia pensar, “ora, já vou esperar um ano mesmo, por que não esperar mais um dia?”, e aceitar a proposta. Grosso modo, existe um eterno conflito entre dois vocês: o você do presente e o você do futuro. O você do presente é ansioso e quer prazer na hora. O você do futuro (na sua cabeça do presente) é um sujeito parcimonioso, que aguenta esperar para conseguir maiores e melhores recompensas. 

E o que isso tem a ver com as promessas de fim de ano? Bem, quando o ano está por terminar, você traça suas metas para o ano seguinte, só que descontando o tempo hiperbolicamente – você estabelece que vai perder peso, que vai poupar dinheiro, que vai trocar de emprego, que vai aprender a tocar um instrumento, enfim, as mais interessantes mentiras metas que você consegue imaginar. Vislumbrando o ano que vem no dia de hoje, fazer essas coisas parece tão fácil quanto trocar R$1,00 daqui a um ano por R$1,50 daqui a um ano e um dia.

O problema é que quando chega a vez de você tomar a decisão no futuro, acontece o que chamamos de inconsistência dinâmica. Infelizmente, em geral, você acaba por optar por aquilo que não tinha escolhido. No planejamento, feito no presente, mas olhando para o futuro, parecia tão fácil trocar hamburguer por salada para poder emagrecer. Todavia, na hora que você tem de escolher de fato, não é tão fácil assim… e você cede.  Da mesma forma que checar atualizações do facebook – e terminar por ler este texto chato – se tornou mais atraente do que aquela atividade importante que você tinha planejado fazer agora.

Ciente disto, você pode criar mecanismos para transformar sua procrastinação em algo produtivo. Ou mecanismos para te impedir da tentação hedonista do seu eu do presente. Por fim, e o mais provável, pode conviver com esta autoenganação eternamente, e agora tendo um nome bonito para explicar um dos motivos pelos quais ela acontece.

Esperto era o Ulisses.

Feliz 2012!