O lucro é justo?


Imagine dois homens.

Um deles trabalha de sol a sol e, se consumir tudo o que ganha, permanecerá pobre. Ao final do ano não estará mais rico do que no começo, nem terá outra perspectiva além de reiniciar todo o processo novamente.

Já o outro homem, atualmente, nada faz, nem com as mãos, nem com o cérebro. Ele não trabalha, contudo, vive bem; tem tudo em abundância; pratos finos, roupas elegantes, mobília suntuosa. Ele vive da renda de seu capital. Ele consome artigos produzidos com o suor dos trabalhadores, pois tais coisas não surgem do nada; foram eles que plantaram o milho, teceram as roupas, construíram a mobília.

Se o trabalhador consumir qualquer excedente que tenha gerado, ele estará sempre no mesmo ponto de partida. Um mesmo trabalho é remunerado somente uma vez. Mas, se o rentista consumir a totalidade de seu ganho anual, ele terá, no ano seguinte, e por toda a eternidade, uma renda fixa e perpétua. O capital, portanto, não é remunerado uma vez, nem duas, mas indefinidas vezes.

“Nesse arranjo social”, indaga Bastiat, “não há um mal monstruoso a ser reformado?”. Indo além, se o rentista não gastar parte de sua renda, ele conseguirá, sem outro esforço, aumentar seu capital de maneira tão rápida que, em pouco tempo, consumiria o mesmo tanto que cem famílias da classe trabalhadora. “Isso tudo não prova que a sociedade em si carrega em seu seio um horrendo câncer, que deve ser erradicado, mesmo sob risco de algum sofrimento temporário?”

É deste modo que o liberal francês inicia seu panfleto Capital e Renda . Isto se passou no ano de 1849, após a revolução francesa de 1848, em um momento de turbulência social em que o socialismo ganhava força. Bastiat direcionou o texto aos trabalhadores de Paris simpáticos às promessas revolucionárias, personificadas, principalmente na França, por Proudhon. E, a despeito do início acima destacado, o objetivo era dizer que sim, a remuneração do capital é justa, mesmo com sua natureza perpétua.

Esta e outras obras de Bastiat encontraram repercussão positiva na classe trabalhadora parisiense. Isto preocupou a frente socialista, levando Chevé, um redator do jornal de Proudhon à época – A Voz do Povo -, a escrever contra as conclusões do liberal. A despeito das críticas, Proudhon abriu as portas à Bastiat, permitindo uma réplica no mesmo jornal, atitude difícil de se observar em debates com oponentes de visões tão distintas: “(…)deixamos abertas as colunas (do jornal) para o nosso adversário; publicaremos seu artigo inteiro, não faremos comentários sobre ele, a fim de não influenciar o julgamento de nossos leitores, e para igualar as vantagens da controvérsia entre o nosso antagonista e nós mesmos”.

A resposta de Proudhon viria somente na semana seguinte; a partir de então, ele toma o lugar de Chevé no debate. Após, tanto o liberal Bastiat quanto o socialista Proudhon trocam mais dez cartas no jornal, sob os olhos do público, acerca da natureza e da legitimidade do lucro. O debate é finalizado com uma última resposta, não publicada, de Bastiat, pois ao final as acusações partiram para argumentos ad hominem por parte de Proudhon.

Este é um debate bastante interessante da HPE, que passa sobre a discussão da origem e legitimidade do lucro, divisão social do trabalho, crédito e, inclusive, sobre a proposta de crédito gratuito para os trabalhadores. Caso você, como eu, tenha se interessado pelo episódio, continue lendo aqui.

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