Nova base de dados de séries de tempo


Há pouco tempo surgiu uma nova base de dados de série de tempos – Quandl.

Além de agrupar diversas estatísticas de fontes diferentes, o site permite baixar os dados em vários formatos (como excel ou csv) e ainda permite importação de dados diretamente em várias ferramentas de análise, como R e Python. Isso é uma mão na roda em muitos casos.

Outra possibilidade no Quandl é a de incorporar gráficos diretamente nos posts, tal como o exemplo abaixo com a evolução do IPCA acumulado em 12 meses.

Graph of IPCA - Acumulado em 12 meses

Apesar da ressalva de ser uma fonte secundária de informações, para quem ainda não conhecia, certamente vale a pena conferir.

Economia, Democratas e Republicanos


Ontem, dois blogs (Marginal Revolution e Econbrowser) comentaram um interessante artigo de Alan Blinder e Mark Watson. A economia americana, sob quase qualquer ótica que você escolher, se comportou melhor durante os governos democratas do que durante os governos republicanos. Vejam alguns indicadores:

PIB: 4,35% x 2,54%;

Recessões: 8 para os democratas x 41 para os republicanos;

Taxa de desemprego: 5,6% x 6,0% (e variação na taxa de desemprego, -0.8 p.p x +1.1 p.p);

Taxa de inflação: 2,97% x 3,44% (mas os democratas perdem na variação, +1.05 p.p x -0.83 p.p)

Mas o que explicaria essas diferenças? Os democratas governam melhor do que os republicanos? Não necessariamente. Os autores acreditam que os democratas, muito provavelmente, foram simplesmente sortudos. Segundo Blinder e Watson, os fatores que melhor explicam os diferenciais são: os choques de petróleo, os choques de produtividade e as expectativas dos consumidores.

Em suas palavras:

Specifically, Democratic presidents have experienced, on average, better oil shocks than Republicans, a better legacy of (utilization-adjusted) productivity shocks, and more optimistic consumer expectations (as measured by the Michigan ICE).

Minha opinião: o artigo é provocador, mas a evidência apresentada muito ambígua. Mesmo se aceitarmos que essas são as variáveis fundamentais, quer queira, quer não,  tanto o preço do petróleo, quanto as expectativas dos consumidores são variáveis bastante afetadas por decisões políticas; e a “produtividade dos fatores” é um resíduo, indefinido do ponto de vista econômico (os autores admitem essas três qualificações, mas timidamente).

Assim, me parece que, neste caso, não haveria como fugir de uma boa (e extensa) revisão histórica de como e por que se deram os choques (de petróleo e de produtividade), bem como uma boa fundamentação teórica (e, quem sabe, contrafactual) de como esses choques ocorreriam a despeito das decisões políticas de ambos os partidos.

Livros de R e Python


Compartilharam comigo, agora passo em frente. Seguem dois links com alguns livros em pdf para programação em R e em Python.

Mais sobre Python: o Sargent publicou um livro online de modelagem e economia quantitativa com a linguagem.

Concentração do Investimento Brasileiro no Exterior e erro de medida


Já que falamos do CBE no post anterior, aproveito para destacar outro dado daquela pesquisa, que muitas vezes passa despercebido: a concentração do Investimento Brasileiro Direto (IBD) no exterior em poucos investidores. Na publicação dos resultados, os declarantes foram separados pelo tamanho de seu investimento, como, por exemplo, investidores que possuem investimentos no exterior de até US$ 1 milhão (a menor categoria) ou investidores que possuem investimentos no exterior maiores do que US$1 bilhão (a maior categoria).

No quadro 2 da publicação, você encontrará a seguinte distribuição, reproduzida no gráfico abaixo (agrupei as duas últimas categorias do quadro). Em vermelho, você tem o percentual de investidores que se encontram naquela faixa de investimento – perceba que quase 70% dos declarantes do CBE têm um investimento menor ou igual a  US$ 1 milhão e que apenas 0,3% dos declarantes possuem investimentos maiores do que US$500 milhões. Já em azul, você encontra o quanto cada uma dessas categorias responde pelo valor total declarado. Note que 0,3% dos declarantes respondem por cerca de 70% dos 356 bilhões de dólares que o Brasil possuía investidos no exterior.

Concentracao IBD

Em outras palavras, a distribuição do IBD tem cauda bastante pesada – poucas observações respondem pela quase totalidade do valor. Além de ilustrar  o grau de concentração deste tipo de investimento , isto tem uma implicação importante com relação ao (provável) erro de medida, e consequentemente, na incerteza dessas estatísticas.

Para tanto, vejamos o quadro 7, que é análogo ao quadro 2, mas faz a separação apenas para a modalidade de IBD participação no capital. Pelo quadro, 32 declarantes respondem por US$ 158 bilhões do estoque total, isto dá, na média, cerca de US$ 5 bilhões por declarante. Agora veja a distribuição da mesma modalidade por país (quadro 3). Em 2012, o maior estoque de IBD participação no capital, segundo o quadro 3 do CBE, estava na Áustria, com cerca de US$ 57 bilhões. Este valor, então, decresce exponencialmente, sendo a média por país mais ou menos US$ 6 bilhões e a mediana US$ 1 bilhão. Perceba que, caso apenas um dos grandes declarantes esteja classificado de forma errada – e considerando, conservadoramente, o valor médio do grupo – no melhor cenário, se o erro for na Áustria, isso responde por 10% do total estimado para aquele país; se for em um país de IBD médio, isso responde por um erro de 83%; e se for em um país de IBD mediano, o valor do erro é cinco vezes maior do que o valor estimado!

Então se, por um lado, o fato de a distribuição estar concentrada em poucos investidores reduz o número de declarantes que o Banco Central precisa investigar para validar grande parte do valor total declarado, por outro, o impacto de apenas um registro errado pode ser bastante significativo. Note a diferença deste tipo de estatística, para, por exemplo, a estimativa da expectativa de vida média do brasileiro – neste caso, vários registros errados dificilmente alterariam o valor médio de forma substancial.

Para finalizar,  uma curiosidade. Veja abaixo os gráficos do logaritmo do valor do investimento (X) contra o logaritmo da probabilidade de o investidor ter investimentos maiores do que X (a linha preta é reta de regressão). Lembra o gráfico de um lei de potência, não?

CBE_ConcentracaoMais sobre este tipo de assunto neste blog aqui.

 

Em que países os brasileiros investem?


No post anterior vimos quais países tem investimento direto no Brasil (pelo critério de país de origem imediata).

Agora, que tal visualisarmos em que países os brasileiros investem?

Para tanto, podemos pegar os dados da pesquisa de Capitais Brasileiros no Exterior. Tal qual criança quando ganha um brinquedo novo, vamos lá brincar no R mais uma vez. Abaixo, mapa com a distribuição do Investimento Brasileiro Direto (IBD), participação no capital, conforme país de destino imediato, em 2012.

IBD_pais

PS: encontrei o pdf do Applied Spatial Data Analysis with R,  então esperem mais posts deste tipo.

Investimento Estrangeiro Direto no Brasil (mapa por País de Origem Imediata)


Que tal visualizar os dados do Censo de Capitais Estrangeiros de uma maneira diferente?

Abaixo, mapa com a distribuição do Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil, critério participação no capital, em 2010, segundo o país de origem imediata. O mapa foi feito no R. Quanto mais escuro, maior o investimento daquele país em empresas brasileiras.
IED_Pais

PS: agradeço ao Rogério pelo didático post ensinando o caminho das pedras.

Londres para economistas: Keynes e Phillips


Keynes morou em Bloomsbury, em frente a Gordon Square, casa n 46.
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E não somente Keynes, mas também outros membros do Bloomsbury Group moraram ao redor.
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Já no museu de ciência, em South Kensington, você encontra a máquina hidráulica que Phillips (o mesmo da curva de Phillips) criou para explicar a macroeconomia visualmente.
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Você pode regular diversas funções na máquina, como a reação do investimento à taxa de juros, gasto do governo, preferência pela liquidez para ver o que ocorre com a renda nacional.

Empresas com capital estrangeiro no país: informações contábeis e econômicas


Ontem foi publicado novo quadro no Censo de Capitais Estrangeiros no País, com algumas informações contábeis e econômicas das empresas com capital estrangeiro. Os dados podem ser acessados aqui, quadro nº 21.

Em 2010, os dados se referem a empresas de investimento estrangeiro direto, isto é, àquelas que detinham pelo menos um investidor estrangeiro com 10% ou mais do poder de voto. Naquele ano, por exemplo, essas empresas empregaram cerca de 2 milhões de pessoas e responderam por cerca de 40% das importações e exportações nacionais. É interessante notar que não entram nestes dados operacionais os números correspondentes às empresas de investimento estrangeiro indireto cujas informações não estejam consolidadas na matriz. Assim, muito provavelmente, esses números subestimam as atividades relacionadas ao capital estrangeiro no país.

Convém ressaltar que o quadro também apresenta dados contábeis e econômicos das empresas com capital estrangeiro de 1995 a 2005, mas esses não são diretamente comparáveis aos dados de 2010, pois houve uma mudança de metodologia na pesquisa. Em 1995, 2000 e 2005, os dados se referiam às empresas em que os investidores não residentes detinham, individualmente ou não, 10% ou mais das ações ou quotas com direito a voto, ou 20% de participação direta ou indireta no capital total, abarcando grupo de empresas mais amplo do que o da pesquisa de 2010.

Déficits causam câncer


Reinhart e Rogoff perderam muito tempo com os argumentos errados. Vejam o gráfico:

deficit_e_cancer

Brincadeiras à parte, gostei da carta dos autores a Krugman e do post do Hamilton.

Já DeLong argumenta que, se os autores dizem que a idéia geral do artigo não se altera radicalmente por causa dos erros, por outro lado, isso não muda o fato de o argumento ter sido fraco desde o princípio (não que eu concorde com DeLong, mas o ponto é mais do que pertinente):

The third thing to note is how small the correlation is. Suppose that we consider a multiplier of 1.5 and a marginal tax share of 1/3. Suppose the growth-depressing effect lasts for 10 years. Suppose that all of the correlation is causation running from high debt to slower future growth. And suppose that we boost government spending by 2% of GDP this year in the first case. Output this year then goes up by 3% of GDP. Debt goes up by 1% of GDP taking account of higher tax collections. This higher debt then reduces growth by… wait for it… 0.006% points per year. After 10 years GDP is lower than it would otherwise have been by 0.06%. 3% higher GDP this year and slower growth that leads to GDP lower by 0.06% in a decade. And this is supposed to be an argument against expansionary fiscal policy right now?….

Gráfico retirado de Os números (não) mentem.

Sobre a acurácia das variáveis econômicas III


Em posts anteriores falamos sobre a qualidade dos dados macroeconômicos e que dados oficiais são estimativas (ver aqui e aqui). Mas, qual o sentido prático disto? Vejamos com um exemplo.

Na conta de importação de serviços do balanço de pagamentos do México, fretes e seguros respondem por US$ 9,8 bilhões, cerca de 33% dos US$ 29 bilhões que totalizam a rubrica – trata-se de seu componente mais relevante. Como o México estima esse valor?

Antes de entrar no caso do México, tratemos brevemente dos meios de estimação mais comuns de fretes e seguros entre os países. O primeiro método é por meio dos valores declarados na aduana. Quando esta tem um campo de fretes e seguros discriminados em algum documento administrativo, é possível ao compilador utilizar estes valores para a estimação. Um segundo método é utilizar alguma proporção das importações ou exportações. Muitas vezes, a aduana do país registra apenas o valor CIF das importações, isto é, o valor com os custos de fretes e seguros incluídos. Deste modo, o compilador realiza uma pesquisa a cada 5 ou 10 anos, por exemplo, para estimar qual é a proporção do valor importado que corresponde a fretes e seguros.

É possível que você tenha pensado: “o primeiro método, com os dados da aduana, não deveria ser considerado uma estimativa, é o valor real!”. Mas não é. Voltemos ao México.

O México é um país que poderia se enquadrar no primeiro caso – sua aduana registra valores de fretes e seguros. Contudo, os pagamentos de fretes e seguros relatados em uma operação da aduana correspondem à importação de uma ampla gama de produtos, de diferentes naturezas e de vários países, tudo consolidado em um único documento. A regulamentação aduaneira tem suas próprias peculiaridades, não necessariamente relacionadas às informações que desejariam os compiladores da estatística. Ao fim, os dados da aduana lhes pareciam muito imprecisos, subestimados e demasiadamente agregados.

Com isto em mente, o Banxico buscou metodologia alternativa. Sua intenção era calcular o valor ao custo real de mercado e, assim, buscou preços no país vizinho, os Estados Unidos, que publicam, mensalmente, dados de custo médio dos fretes e seguros de importação por tipo de produto, país de origem e meio de transporte. Entretanto, o custo médio varia bastante por volume importado, e é preciso realizar este ajuste. Assim, roda-se uma regressão deste custo médio contra dummies dos portos dos EUA (pois cada porto pode ter um custo diferente) e volume importado (em log), para encontrar o coeficiente de ajuste entre volume e custo médio, chamado aqui de beta. Com o custo médio, o beta para ajuste e o volume das importações mexicanas em mãos , é possível estimar os custos de fretes e seguros do país. Atualizam-se o beta anualmente e o preço médio mensalmente sendo possível, deste modo, obter estimativas por produto, país e meio de transporte, que variam conforme condições de mercado, algo que não seria factível com os dados administrativos da aduana.

Mas, qual a diferença deste valor com o anterior, da aduana? O novo método estima custos cerca de duas vezes maiores e isso pareceu mais alinhado à realidade de mercado do que os dados anteriormente declarados. É uma diferença bem significativa.

Portanto, é importante atentar-se para dois detalhes: (i) dados que, a primeira vista, poderiam ser considerados “os valores reais” (dados de questionários, formulários administrativos, etc), podem ter problemas e estar tão sujeitos a erros quanto outros procedimentos; (ii) muitos componentes dos dados macroeconômicos que você utiliza, tal como a conta de fretes e seguros do exemplo acima, são derivados de um processo de estimação prévia. No nosso exemplo, seja o dado administrativo, ou o dado derivado pela outra metodologia, fica claro que ambos têm que ser vistos como estimativas, cada método com suas vantagens e limitações, sendo preciso entendê-las para saber o que aquele dado pode ou não pode te responder.