Sexo e repressão?


A&R lançam uma pergunta interessante: a Alemanha nazista, a China de Mao, a União Soviética de Stalin e a Coreia do Norte regulam e reprimem o sexo. Será que não é possível permitir liberdade sexual e ao mesmo tempo reprimir as demais liberdades civis e políticas?

Aumentar a taxa de juros pode depreciar o Real?


Segundo Carlos Eduardo Gonçalves e Bernardo Guimarães, sim e isso pode (poderia) estar ocorrendo no Brasil.

Os autores trazem à tona a literatura que mostra como a paridade descoberta da taxa de juros (UIP) pode ficar invertida. A razão para tanto seria basicamente que, em algumas situações, o maior risco de default associado ao aumento dos juros superaria o maior retorno nominal.

Gonçalves e Guimarães também tentam buscar evidências dessa relação invertida no Brasil. Estimam que um aumento de 1 ponto percentual (100 pontos bases – note que não é a variação de 1%) na taxa de juros implicaria em uma depreciação de aproximadamente zero a 2% na taxa de câmbio.

Como sabemos, um dos canais da política monetária é seu efeito na taxa de câmbio por meio do pass-through. Em geral, supõe-se que este canal atue no sentido correto, isto é, aumento de juros implicaria em apreciação cambial e arrefecimento da inflação. O resultado dos autores é contra-intuitivo. Uma lição interessante deste exercício é que, em alguns casos, um aparente “sinal errado” que você obtém em uma estimativa pode não estar errado – então pense bem antes de fazer lambanças mudanças na especificação de um modelo até conseguir o sinal “correto”! É melhor estar aproximadamente certo, mesmo que com um resultado estranho, do que exatamente errado mas com os resultados que você queria.

Mas qual a importância deste resultado a não ser por uma curiosidade teórica? Note que, se o canal do câmbio tiver efeito contrário, isso poderia ter sérias implicações na política monetária. Afinal, o efeito do aumento da taxa de juros por este canal estaria atuando em direção contrária à desejada. Mas por que coloquei poderia? Porque a magnitude aqui faz toda a diferença.

Exponho, então, algo de que senti falta (além de uma discussão mais detalhada sobre a validade dos pressupostos da estratégia econométrica) no artigo (obviamente que isso não quer dizer que o artigo esteja ruim): um julgamento quantitativo da estimativa. Quão relevante seria um impacto de aproximadamente zero a 2%? No artigo, por exemplo, não temos as estatísticas descritivas do período (2000 a 2006), é difícil julgar se essa variação é grande ou pequena na amostra, frente à variação de 1 ponto percentual na taxa de juros. Nessa época o câmbio chegou a oscilar entre 1 e tantos a 3 reais. Uma mudança de R$0,02 ou R$0,06 na taxa de câmbio seria economicamente relevante para fins de política monetária?

Apenas a título de ilustração, segundo uma estimativa de Nogueira Junior, em um ambiente de inflação baixa e estável uma depreciação cambial de 10% poderia resultar em aumento de inflação de apenas 0,8%. Neste caso, se as magnitudes forem comparáveis*, o efeito estimado de Gonçalves e Guimarães me pareceria, na prática, zero, negligenciável. Mas será que é? Não sei. Mas note que, se é possível demonstrar, de maneira plausível, que a UIP invertida é uma possibilidade, então, como possibilidade, a teoria bastaria. Já como realidade, a existência por si só não basta. Entender o tamanho de seu efeito parece muito mais importante.

Em resumo, o leitor, apenas com os dados apresentados, não consegue identificar a relevância (ou irrelevância) econômica da inversão da UIP… o que se consegue é conjecturar sobre a possibilidade teórica de sua existência, sem uma noção mais robusta de seu impacto.

* por exemplo, as medidas de câmbio são diferentes. Há outras questões, a idéia é apenas ilustrar o ponto.

PS: o Carlos Eduardo tem um Blog bacana com Fábio Kanczuk e Celso Toledo.

P-valor não é probabilidade a posteriori!


Quando saiu a “descoberta” do Bóson de Higgs, praticamente todos os jornais divulgaram a notícia confundindo o p-valor da pesquisa como a probabilidade a posteriori de se cometer um erro. Esta confusão é muito mais comum do que se imagina, inclusive entre os próprios professores e livros de estatística (vide, por exemplo, Haller e Kraus, 2002 ou Gigerenzer, 2000).

A esse respeito, neste último final de semana, vi uma apresentação de uma aula de métodos quantitativos de um ótimo curso de pós-graduação em que se afirmava que o p-valor indicaria, “informalmente”, a probabilidade de a hipótese nula ser verdadeira. Isso não é verdade, nem informalmente – essas duas probabilidades podem até coincidir, mas apenas em circunstâncias específicas, pois ambas podem ser arbitrariamente distantes, a depender dos pressupostos a priori (vide DeGroot, 1973 ou Casella e Berger, 1987 para casos em que coincidem. Vide Berger e Selke 1987, para casos gerais em que não).

Vale a pena, portanto, recolocar aqui o link para um breve video sobre o p-valor. Provavelmente voltarei a este assunto em breve (p<5% ?).

HALLER, H.; KRAUSS, S. Misinterpretations of significance: A problem students share with their teachers? Methods of Psychological Research Online. v.7(1), p. 1–20. 2002.

GIGERENZER, G. Adaptive Thinking—Rationality in the Real World. Oxford Univ. Press, New York. 2000.

DEGROOT, M. H. Doing What Comes Naturally: Interpreting a Tail Area as a Posterior Probability or as a Likelihood Ratio. Journal of the American Statistical Association, 68, p. 966-969, 1973.

CASELLA, G.; BERGER, R. L. Testing Precise Hypotheses: Comment. Statistical Science, v.2(3), p. 344-347, 1987b.

BERGER, J. O.; SELLKE, T. Testing a point null hypothesis: The irreconcilability of P values and evidence. Journal of the American Statistical Association, v.82(397), p. 112-122, 1987

Como a inflação tem atingido diferentes grupos após a estabilização e abertura comercial


A inflação não é um fenômeno homogêneo e tem um impacto diferente em cada indivíduo. Apesar de ser um fenômeno macro, sua percepção é essencialmente micro –  o IPCA pode ter fechado o ano passado em 6,5%, mas muito provavelmente o seu (e com certeza o meu) custo de vida teve uma variação distinta.

Deste modo, é interessante decompor a inflação por regiões ou por classes sociais, para saber como ela tem impactado grupos diversos. Como a inflação é uma média ponderada, o primeiro passo é saber a composição da cesta de consumo de cada grupo que se pretende analisar. A tabela 2 abaixo, retirada do artigo de Silva e Neto, mostra esta composição para pobres, classe média e classe alta, nas regiões centro-sul e nordeste.

De fato, tomando o nordeste como exemplo, enquanto lá os pobres gastam 41% por cento de sua renda com alimentação e bebidas , este valor é de somente 12% para a classe alta, que tem seu consumo mais vertido para transporte, saúde e despesas pessoais. É interessante notar que esses são bens e serviços com reações diferentes frente à demanda interna e à concorrência externa.

Alimentos e bebidas estão em um grupo de bens a que chamamos de comercializáveis: eles são disciplinados pela concorrência internacional. Isto é, o preço doméstico tem de ser igual ao preço externo vezes a taxa de câmbio (mais os custos de transação, impostos inclusive). Deste modo, este mercado responde menos à demanda doméstica e mais à taxa de câmbio e aos preços internacionais. Tanto que de 1995 a 2008,  a inflação de alimentos superou o IPCA nos anos 2001-2002 (alta do dólar) e nos anos 2007-2008 (alta dos preços internacionais dos alimentos).

Já a saúde e as despesas pessoais (este último inclui serviços e recreação) são não-comercializáveis; além disso, o mercado de transportes (e veículos) é bastante regulado. Assim, os preços destes bens/serviços deveriam refletir mais fatores internos, como a estrutura de custos brasileira e pressões de demanda.

E como se comportaram estes preços no período 1995-2008? Conforme a tabela 3 abaixo,  a inflação de alimentos foi cerca de 5 a 2 vezes menor do que a inflação de outros componentes.

Assim, a inflação acumulada para os pobres no nordeste foi 22,7 pontos percentuais menor do que a média nacional. Aparentemente, a abertura comercial, o real forte e a estabilização da economia tem protegido os mais pobres de uma alta mais acentuada nos preços – o governo deveria pensar duas vezes antes de intervir nessas questões.

O melhor artigo nunca escrito


Mankiw dá a dica de mais um artigo para a lista de Gag Papers. Impossível não deixar de ler.

É errado discriminar preço? Mais ainda por gênero?


No Brasil, alguns iluminados acharam que deveriam favorecer os usuários de cartões de crédito em detrimento dos que preferem pagar à vista e receber desconto. Assim, aqui, apesar de muitos ainda não saberem (como eu não sabia há algum tempo), é proibido discriminar preço por meio de pagamento.

Se você ficava perplexo por não conseguir desconto à vista, eis um dos motivos. Apesar de a transação com o cartão envolver custos adicionais, o lojista é obrigado a cobrar o mesmo preço e dividir estes custos com os demais consumidores que pagam em dinheiro. Os governantes e legisladores do nosso país não se cansam de inventar formas de ferir o bom senso econômico (ou de facilitar a vida das bandeiras de cartão).

Entretanto, não sei se para consolo ou desespero, é possível achar legislações mais esdrúxulas ao redor do mundo.

Você seria a favor de uma lei que proibisse a discriminação de preços por gênero? Posto desta forma – e em virtude do patrulhamento cego do “politicamente correto” – é até capaz de você achar que discriminar preços entre homem e mulher seja algo ruim. Mas, não é. Pare para refletir: você se depara com isso a todo tempo no seu dia-a-dia. Basta ir ao cabeleireiro e perceber que o preço do corte masculino é diferente do preço do corte feminino. Ou comprar um seguro de vida. Ou aderir a um plano de saúde. E assim por diante.

Mas, segundo o Wall Street Journal, desde o ano passado a cidade de Nova York está buscando aplicar uma lei de 1998, multando salões de beleza por diferenciarem seus preços entre homens e mulheres.

Isto concorre em pé de igualdade com a medida brasileira – se já não existir uma lei como essas por aqui, apenas esperando um iluminado, com sua boa vontade bancada pelos cofres públicos, para colocá-lá em prática.

Via Market Design

Pombos são mais espertos do que humanos?


Segundo este estudo, pelo menos no que tange ao problema de Monty Hall*, sim.

(Este é um problema que envolve uma pegadinha de probabilidade na qual quase todo ser humano cai. Aparentemente, os pombos aprendem. Para saber o que é o problema de Monty Hall, leia abaixo ou o link do wikipedia acima. Para quem assistiu ao filme Quebrando a Banca, este problema aparece logo no início.)

O estudo aplicou o problema de Monty Hall a pombos e verificou que durante o experimento os pássaros foram se adaptando ao problema. Ao final, os pombos adotaram uma estratégia ótima que maximizasse o retorno esperado do prêmio.

Já os humanos, não. No primeiro dia de experimento, ambos, humano e pombo, adotavam uma estratégia razoavelmente similar. Ao final do trigésimo dia de experimento, como os pombos aprenderam rapidamente, os participantes humanos eram 30,67% menos propensos do que os pombos a adotarem a estratégia correta.

*O que é o problema de Monty Hall?

Suponha que você esteja participando de um jogo com três portas e que atrás de uma delas tenha um carro como prêmio. O apresentador do jogo pede a você que escolha uma porta. Se você escolher a porta que tem o carro, você ganha o carro.

Entretanto, após você escolher sua porta, o apresentador abre uma outra porta do jogo e mostra que aquela porta está vazia. Atrás dela não está o prêmio. O apresentador, então, pergunta: “Você quer mudar de porta?”. Há apenas duas portas sobrando, aquela que você escolheu primeiro e aquela que não foi aberta.

Você mudaria de porta? Qual a probabilidade de você ganhar o prêmio, se mudar de porta?

Em geral, as pessoas acham que é 50%. Afinal, ou o prêmio está na porta que você escolheu, ou está na outra porta que sobrou. Mas essa resposta não é correta.

A forma mais fácil de visualizar isso é a seguinte. Vamos nomear as portas de “porta premiada”, “porta não premiada 1” e “porta não premiada 2”. Ao escolher a sua porta, você tinha 1/3 de probabilidade de escolher cada uma delas.

Se você escolher a “porta premiada” e mudar, você perde. Este evento tem probabilidade de 1/3.

Se você escolher a “porta não premiada 1”, o apresentador irá abrir a “porta não premiada 2”, restando unicamente a “porta premiada”. Então se você mudar, você ganha. Este evento tem probabilidade de 1/3

O mesmo raciocínio acima vale para caso você escolha a “porta não premiada 2”. E, novamente, este evento tem probabilidade 1/3.

Logo, a probabilidade de você ganhar caso mude de porta é 1/3+1/3=2/3=66,66%.

Ao que parece, os pombos aprendem rapidamente que mudar de porta dá mais prêmios ao longo do tempo. Já os humanos têm uma dificuldade enorme de aprender o problema acima, mesmo depois de duas centenas de tentativas, conforme o experimento do estudo!

O guia da etiqueta profissional para o jovem economista


Já havíamos divulgado aqui as dicas de Daniel Hamermesh sobre como publicar nas melhores revistas. Hoje, por acaso, encontrei entre velhos arquivos o guia da etiqueta profissional para o jovem economista.

Monopólio da pobreza


Aqui no Brasil, todo mundo quer usar as leis e o governo para retirar recursos da sociedade em seu favor. Se não para transferência de renda de maneira direta, ao menos para conseguir monopólios.

Os jornalistas, por exemplo, em detrimento da liberdade de expressão, querem reaver o monopólio da notícia, chegando ao ponto esdrúxulo de fazer lobby para uma emenda constitucional. Sobre este tema – que merecia post em separado, mas fica para algum dia – deixo aqui o texto  de Lúcia Guimarães e também texto antigo do Alexandre Barros, que não é sobre o jornalismo, é mais geral, mas cabe bem ao assunto.

Mas os advogados, de quem já falamos aqui (sobre controle de preços), porquanto íntimos do sistema e seus meandros, acabam sendo os piores. Sempre.

Vale à pena ler este artigo de denúncia à OAB, que proíbe o exercício da profissão de forma voluntária. Caso o pobre necessite do serviço, o advogado não pode se oferecer para prestá-lo gratuitamente, para que isso não atrapalhe as intenções da OAB de receber dinheiro público pelo ofício – um verdadeiro monopólio da pobreza.

Qual a probabilidade de o Brasil (ou os EUA) estar em uma recessão?


Segundo Marcelle Chauvet, em maio essa probabilidade era de apenas 5,2% no Brasil. Já para os EUA, em abril, a probabilidade era de 4,3%. Para quem, como eu, ainda não conhecia este trabalho de “previsão em tempo real” de uma recessão,  vale à pena consultar os textos do Center for Research on Economic and Financial Cycles. O modelo da Chauvet e Hamilton (em azul, abaixo) consegue capturar todas as recessões dos EUA segundo o NBER (em cinza):