Qual é o problema com modelos? Nenhum, o problema é com quem os interpreta…


… como realidade e não como metáforas.

Como diz Edward Leamer: “It is difficult to train a computer to understand a metaphor, and it is likewise difficult to train our students to understand the metaphors of economics, our models. Our students do what anyone unfamiliar with a language does: they take the models literally.” Mas não deviam.

Então, se algum economista te mostrar um modelo de concorrência perfeita, não é para você pensar que os economistas acreditam, nem tampouco para você acreditar que os preços são dados, que para existir concorrência teria de haver milhares de empresas sem poder de mercado, que não existe atividade empresarial fundamentada no erro e na descoberta… interpretar um modelo de concorrência perfeita dessa forma, usando uma analogia de Leamer, é a mesma coisa de olhar um mapa em que a avenida é desenhada na cor vermelha e achar que a avenida é de fato vermelha. Corolário disto: não é para você pegar um modelo e aplicá-lo a toda e qualquer situação – o trabalho do economista é justamente identificar o momento apropriado de utilizá-lo.

O poder da estatística, ou como você é tão previsível.


Nos EUA, um pai ficou indignado ao encontrar, na sua caixa de correio, cupons de desconto para roupas de bebê enviados por uma cadeia de varejo em nome de sua filha menor de idade. Acusou a loja de tentar induzir a garota a ser mãe precocemente. Mas, após confrontar a adolescente, descobriu que a filha já estava grávida. Só ele não sabia. Os estatísticos da loja de departamentos Target não tiveram acesso a nenhum teste de gravidez. Apenas inferiram que aquela consumidora iria dar à luz cruzando informações de compras: a mudança no seu padrão de consumo era consistente com o de outras grávidas. Foram tão precisos quanto um exame de ultrassom.

Via Moral Hazard.

Os casados são mais felizes? Ou sobre causas e conseqüências.


Tratei anteriormente sobre a troca entre meios e fins bem como entre intenções e resultados. Agora, para passar o tempo antes de escrever a dissertação, gostaria de falar de uma confusão muito mais intrincada. Até, muitas vezes, a depender do problema, eternamente insolúvel: aquela entre causa e conseqüência.

Suponha que alguém lhe apresente dados de uma pesquisa em que se constate que a felicidade de pessoas casadas é maior do que a dos solteiros. A partir daí podemos concluir que casar deixa, na média, as pessoas mais felizes e, portanto, recomendar que as pessoas se casem, certo?

Bem, antes de concluirmos apressadamente, que tal pensarmos na seguinte hipótese. Pessoas mais felizes têm mais facilidade de se casar. Parece algo plausível, afinal, se você é uma pessoa “naturalmente mais alegre”, ou que está em uma situação confortável na vida, pode ter mais facilidade em um relacionamento do que alguém “naturalmente mais triste”, ou que passa, digamos, dificuldades financeiras.

Ora, mas se isso é uma hipótese válida, não poderia ser que observamos os casados mais felizes do que os solteiros justamente porque aqueles que são  (ou estão) mais felizes se casam mais facilmente? Aí entra o problema de identificação entre causa e conseqüência – casar deixa as pessoas mais felizes ou as pessoas mais felizes se casam mais?

Há diversos estudos sobre este assunto em particular. Em geral, do que já li, as conclusões são ambíguas, mas tendem a aceitar as duas hipóteses: sim, pessoas felizes casam mais; contudo, ainda assim há um efeito positivo do casamento em si sobre a felicidade do casal. Para não ficar sem citar nada, um em particular que trata do assunto e que sempre me vem à cabeça (por causa do título fácil – olhe a importância de um bom título) é o do Bruno Frey “Does marriage make people happy,or do happy people get married?”, autor que tenho evitado mencionar pois se envolveu em caso de (auto)plágio.

Há vários exemplos que poderíamos abordar. Por exemplo, no Brasil, as universidades públicas são realmente melhores do que as universidade particulares (como diz o senso comum), ou essa impressão decorre simplesmente do fato de que os melhores alunos acabam indo para as universidades públicas? Crianças que passam muito tempo em frente à televisão se tornam “anti-sociais” ou crianças que não gostam tanto de sair passam muito tempo em frente à televisão justamente para evitar contato?

Por fim, gostaria de ressaltar que se percebe daqui que dados, sozinhos, não nos fornecem muita coisa. Infelizmente, os dados não falam por si, é preciso tratá-los, interpretá-los. Para isso é essencial uma boa teoria que explique a relação observada. Às vezes, quando muito bem deduzida, a teoria por si só pode ser suficiente. Entretanto, como não somos infalíveis e em geral nossas especulações não são completas, nunca é demais – e às vezes pode ser o melhor que temos – tratar os dados estatisticamente e confrontar teoria com realidade.

Newton’s Flaming Laser Sword


Texto interessante e divertido (bom, meu conceito de divertido é bem questionável), discute ciência e filosofia, evidências e teorias. Fala um pouco do que dissemos aqui.

Via Selva Brasilis.

Teorias e evidências, Encontro de Economia do ES e viés de confirmação.


Como deu para perceber, não tenho o dom de pensar em títulos interessantes para posts, então o título deste é basicamente autoexplicativo – os três temas de que tratarei.

Hoje apresentei um trabalho no Encontro de Economia do Espírito Santo e comentei o trabalho de Fábio Augusto Reis Gomes. O trabalho é conciso e traz um resultado interessante, pois mostra um caso em que, em um ambiente de incerteza “de verdade” (não é somente risco), o comportamento ótimo do consumidor pode ser simplesmente gastar toda sua renda. Intuitivamente, o indivíduo avesso ao risco é pessimista e teme poupar e ter um baixo retorno do seu investimento, bem como tomar empréstimo e ter de pagar taxa de juros elevada. Assim, para dado intervalo de renda, seria uma estratégia ótima não poupar nada. O interessante disto é que formaliza o fato de que uma estratégia considerada “ingênua”, como poupar zero, não pode mais ser evidência contra a teoria de que os indivíduos busquem otimizar seu consumo.

Aqui entra uma questão relacionada, como saber se uma evidência dá suporte ou não a uma teoria? Evidentemente, este assunto é amplo. Por isso, tratarei de apenas um ponto, algo comum de ocorrer: o viés de confirmação. Tomemos um exemplo. Um dado como este, de que metade das classes A e C não têm investimentos, trata-se de uma evidência contra a teoria de que a poupança é fruto da escolha racional entre consumo presente e consumo futuro? Para saber se sim ou se não, teríamos de explorar quais são as conseqüências observáveis desta teoria, e ver se, caso ela fosse válida, não poderíamos observar a evidência apresentada. Obviamente, percebe-se que este número por si só não contradiz a tese, fato que é reafirmado pelo exemplo do Fábio. Entretanto, neste exemplo, um colega havia tomado a evidência como a favor da hipótese de que a poupança é um “resíduo” da renda e contra a hipótese de que seja uma “escolha racional”.

Este pode ser visto como um caso de viés de confirmação. O viés de confirmação é a tendência de buscar apenas aquelas evidências que corroboram a teoria que se quer provar e não aquelas que poderiam contradizer o que você acredita. Isso em geral resulta no erro de julgamento de se encontrar uma evidência que parece ser a favor de uma teoria e a partir daí deduzir que ela é verdadeira e as demais são falsas. Vejamos mais um exemplo simples, que talvez seja mais claro: tanto a gripe quanto outras doenças apresentam a febre como um sintoma. Um viés de confirmação se manifestaria se você visse que alguém tem febre e daí concluísse que esta pessoa tem gripe, e apenas se atentasse a verificar os outros sintomas da gripe. Ora, poderia ser que, ao limitar os exames na certeza da gripe, as evidências encontradas não sejam aquelas que diferenciariam a gripe de outras doenças. E você manteria o diagnóstico. Entretanto, é a presença, ou ausência, de outros sintomas – evidências – que lhe trarão maior segurança com relação a sua hipótese. Em particular, aquelas evidências que contradizem a sua hipótese inicial com base em hipóteses alternativas.

Tal erro de julgamento é muito comum, mais do que se imagina. O viés de confirmação pode ser tão grande ao ponto de a pessoa não conseguir ver, involuntariamente, sinais óbvios que contradizem sua hipótese, ler textos e não conseguir entender argumentos simples entre outros problemas. É como a recém grávida que vai à rua e poderia jurar que agora há muito mais grávidas do que antes. Não, não há. Ela que passou a prestar atenção nisso…. Pode ser que não seja possível eliminar este viés, natural ao ser humano, mas é factível e digno de esforço reconhecer sua existência e tentar minimizá-lo.

Ser de “esquerda” – Sobre meios e fins I


Além da troca entre intenções e resultados, algo comum em discussões políticas e econômicas é a confusão entre meios e fins. Incluo ambas como uma das formas de obscurantismo, pois, especialmente no discurso político, isso é mais do que uma troca rotineira, é muitas vezes feita deliberadamente. Em vez de discorrer sobre as diversas formas em que a inversão entre meios e fins pode ocorrer, vejamos um exemplo específico, extraído de uma revista nacional.

No Brasil, é bastante recorrente a justificativa de se dizer de “esquerda” por desejar fins nobres, como nesta passagem retirada da revista Carta Capital:

(…) Ser de esquerda é não roubar nem deixar roubar; é ser contra a exploração do homem pelo homem e de países por outros países; é ser a favor da igualdade entre raças e gêneros; do Estado laico; é ser contra o preconceito e a intolerância; é ser a favor da natureza; de que o povo coma bem e direito; da justiça social (…)

A rigor, pela descrição, todos que desejassem tais fins seriam considerados de “esquerda” – independentemente dos meios que defendam para alcançá-los. Obviamente, não é isso o que ocorre, e daí a confusão (deliberada ou não) entre meios e fins. Neste exemplo, os fins citados são desejados por uma gama bastante heterogênea de pessoas – notadamente, também, grupos que não se enquadrariam à “esquerda” do espectro político. Contudo, segundo a autora, restaria a quem não é de “esquerda” a negação de um dos fins, como ser a favor do roubo, ser a favor da exploração, ser a favor da desigualdade de raça ou gênero, ser preconceituoso e intolerante, ser contra a natureza, a favor da miséria ou contra a justiça social. A troca entre meio e fim permite, neste caso, um discurso que faz parecer exclusividade de um grupo os objetivos nobres, mesmo se isso estiver longe da verdade.

Ora, tomando um dos fins elencados como exemplo, se quero que o povo coma bem e direito, como fazer isso? Eis aí a questão interessante. Pois se, quanto ao fim, há consenso, não faltam propostas divergentes quanto aos meios. Que tal reduzir a zero os impostos de alimentos de modo a torná-los mais acessíveis? Ou, quem sabe, fixar um salário mínimo que cubra os custos desta alimentação? Melhor, por que não estatizar toda a produção agrícola? Ou talvez apenas uma distribuição focalizada de renda aos miseráveis? Essas são políticas completamente diferentes, todas pretendendo os mesmos fins, mas que poderiam ser defendidas por grupos politicamente divergentes.

Como no exemplo caricato do texto retirado da Carta Capital, não são raros grupos arrogando a si os fins nobres, quando no fundo o que defendem é algum meio específico de atuação que, não necessariamente, chegará aos resultados esperados. E, infelizmente, não é sempre que a inversão é exposta de forma óbvia e infantil como esta. Quando deliberadamente sutil e benfeita, a troca entre meios e fins pode, inclusive, servir para ocultar interesses escusos. Pois, a partir do momento que alguém arroga apenas a si os melhores fins, está dada a desculpa para os piores meios.

Sobre intenções e resultados


Pode ser clichê, ou até ingenuidade, mas, de boas intenções o congresso está cheio. Tudo bem, mesmo que não esteja, para o presente propósito suporemos que sim. Seguiremos o conselho de Du Pont:

(…) it is necessary to be gracious as to intentions; one should believe them good, and apparently they are; but we do not have to be gracious at all to inconsistent logic or to absurd reasoning. Bad logicians have committed more involuntary crimes than bad men have done intentionally.

Apesar da abundante generosidade das intenções do congresso nacional e do governo federal, que têm a pretensão de ser verdadeiros pais e mães dos demais cidadãos, nem sempre suas ações geram bons frutos. A sociedade é complexa e, em geral, os formuladores de política desconsideram o contexto em que se encontram, as reações dos indivíduos sujeitos à política, conseqüências de longo prazo ou em cirscunstâncias diferentes da que inicialmente imaginaram, entre outras variáveis . Por conseguinte, não somente obtêm-se conseqüências indesejáveis, como freqüentemente observam-se efeitos contrários ao que se pretendia. Isso não seria problema se as pessoas julgassem leis e políticas segundo seus resultados. Entretanto, geralmente, o que se vê são julgamentos e defesas intransigentes, fundamentadas apenas, ou na maior parte, nas intenções.

O que você acharia de uma lei que obrigasse o responsável por um acidente de trânsito a arcar com as despesas médicas dos feridos? Muito provavelmente, várias pessoas diriam que se trata de uma lei mais do que justa. Moralmente, está correta, afinal, quem fez o dano que arque com as conseqüências, certo? Os incentivos também seriam positivos, pois, ciente de que terá de arcar com possíveis despesas, o motorista seria mais prudente. Mas o diabo mora nos detalhes. O que poderia pensar um motorista, após um acidente, caso vislumbrasse gastos médicos superiores à indenização por morte? Poderia raciocinar de forma a acontecer isto aqui. Sim, o motorista quis se certificar de que a criança estava morta, pois teria de pagar menos. Neste contexto específico, uma lei moralmente correta, com a melhor das intenções, gerou resultado oposto do que se esperava. Este tipo de reação já seria esperado se utilizássemos a teoria econômica do crime na análise da lei. Se algum dia você já se perguntou por que não colocamos leis super-rígidas para quaisquer tipos de infração, é justamente por isso. A intenção pode ser boa, todavia, se a pena por um roubo e um latrocínio forem iguais, o assaltante não irá mais pensar duas vezes antes de matar.

Tomemos agora outro exemplo – a reforma agrária no Brasil. Bernardo Mueller e demais autores trazem evidências de que, devido a inconsistências administrativas e jurídicas com relação ao uso da terra, que resultam em direitos de propriedade inseguros, as políticas de reforma agrária tendem a levar a um aumento do uso da violência e do desmatamento maiores do que ocorreriam caso não fossem aplicadas. Sendo um pouco mais específico, os conflitos se originam de uma inconsistência legal que, de um lado (código civil), garante ao proprietário de terra o seu usufruto, mas que, de outro (constituição), garante aos potenciais invasores o direito à reforma agrária (capítulo III). Devido à insegurança jurídica, o desmatamento torna-se um instrumento para se aumentarem as garantias de posse da terra. Para o dono, o desmatamento é utilizado para colocar a terra em uso produtivo, e minimizar o risco de expropriação (inciso II, art. 185, CF). Já para o invasor, desmatar a terra e fazer benfeitorias aumentam as chances de receber alguma indenização caso seja despejado. Outra questão é o fato de que, em média, os conflitos rurais têm maior predominância nos locais onde, ironicamente, a atuação do INCRA é mais forte – os detalhes podem ser vistos no artigo. Além dos óbvios danos físicos e materiais desses problemas – o que em si já é preocupante – o advento de conflitos violentos também teria o potencial de reduzir o número de arrendamentos. Decerto não eram essas as intenções das políticas de reforma agrária. Porém, estes são os resultados.

Por fim, vejamos mais um exemplo, o mais clichê de todos – a criminalização das drogas. Por ser algo já bastante conhecido, não me alongarei. As intenções por trás da criminalização são as melhores: as drogas podem viciar, arruinar vidas de famílias, causar danos à saúde, entre outros malefícios – assim, nada mais moral e justo do que desejar o fim de seu uso. Mas os resultados não intencionais desta política também ferem o bom senso do cidadão: criação e fortalecimento de crime organizado, desvio de recursos públicos para o combate às drogas (ao invés de financiar atividades mais essenciais), corrupção governamental, incentivo à invenção de drogas mais potentes e mais baratas. Da mesma forma que o pequeno chinês, que foi vítima de incentivos perversos, esta é uma política que cria uma série de outras vítimas, como aqueles que não têm policiamento suficiente a suas portas pois agora há mais policiais corrompidos ou ocupados na luta contra as drogas.

A lista de exemplos poderia ser estendida. Vemos atualmente muitas defesas de políticas públicas e leis que são fundamentadas nas intenções e pouco se discutem os resultados. Financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais com a intenção de reduzir a corrupção; fixação de um salário mínimo nacional com a intenção de acabar com a miséria; aumento do IPI para carros importados com a alegada intenção de proteger empregos nacionais… algo que pode nos ajudar a sair do campo das vontades e dos desejos, para entrar no campo dos fatos e resultados são uma boa teoria, bons dados e estatística. Assim, em um debate, suponhamos todos que temos as melhores intenções. Não obstante, esperam-se argumentações teoricamente fundamentadas, evidências bem tratadas, e não apenas wishful thinking.